Foto de Antônio Bem Cardoso

Antônio
Bem
Cardoso

21/09/1938 - 1970
Serrita, PE
AgricultorFarmerAgricultor

Antônio Bem Cardoso morreu no dia 1º de junho de 1970, executado por agentes da Polícia Federal em sua residência. Conforme o relato de sua esposa Iunele Vieira Cardoso, ao acordar e abrir a porta do quintal para escovar os dentes, na madrugada do dia 1o de junho de 1970, Antônio Bem Cardoso foi surpreendido por agentes da Polícia Federal que lhe acertaram um tiro no peito.

Despertada com o barulho do tiro, Iunele ouviu-o correndo pelo corredor da casa e gritando: “Atiraram em mim”. Mesmo depois de Antônio ter sido baleado, os policiais continuaram a metralhar a casa com Iulene e as filhas dentro. Da rua, ouvia-se vozes ordenando que Antônio se entregasse. Segundo narrou Iunele, essas ordens eram pronunciadas por agentes da Polícia Federal que, ao entrarem na residência das vítimas, retiraram Antônio, todo ensanguentado e agonizando, dos braços de sua esposa. Iunele e suas filhas foram obrigadas, pela polícia, a sair de casa sob ameaça de morte.

Todas as pessoas, amigos e familiares que se aproximavam para prestar socorro e solidariedade às vítimas foram afastadas e/ou detidas pelos policiais. Conforme a versão da polícia, Antônio era procurado por motivos de estelionato. Sua esposa declarou em seu relato que os policiais perguntaram a ela onde Antônio guardava o dinheiro do “roubo” e reviraram a casa para busca-lo. Eles se referiam ao dinheiro retirado do cofre de Ademar de Barros, em ação realizada pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), cujo montante foi dividido entre alguns grupos de resistência para financiar a luta contra a ditadura.

Nessa divisão, Antônio recebeu uma quantia destinada à ALN, no Ceará. Sua localização, pela polícia, foi facilitada ao trocar uma nota de US$ 100,00. Iunele relatou ainda que mais tarde foi levada, por policiais, à delegacia da cidade de Brejo Santo para prestar depoimento e fazer o reconhecimento dos agentes. No entanto, não reconheceu nenhum dos policiais, uma vez que estavam disfarçados quando da realização do crime, com macacões de trabalho.

Segundo o depoimento de uma das filhas, na noite seguinte do sepultamento de Antônio, os policiais desenterraram o corpo e quebraram-lhe os dedos para retirar as impressões digitais de Antônio.

Antônio Bem Cardoso died on June 1, 1970, executed by Federal Police agents in his home. According to the story of his wife Iunele Vieira Cardoso, upon waking up and opening the backyard door to brush his teeth, in the early hours of June 1, 1970, Antônio Bem Cardoso was surprised by Federal Police agents who shot him in the chest.

Awakened by the sound of the shot, Iunele heard him running down the hallway of the house and shouting: “They shot me.” Even after Antônio was shot, the police continued to machine-gun the house with Iulene and her daughters inside. From the street, voices could be heard ordering Antônio to surrender. According to Iunele, these orders were issued by Federal Police agents who, upon entering the victims' residence, removed Antônio, covered in blood and in agony, from his wife's arms. Iunele and her daughters were forced by the police to leave their home under threat of death.

All people, friends and family who approached to provide help and solidarity with the victims were removed and/or detained by the police. According to the police version, Antônio was wanted for fraud. His wife stated in her report that the police asked her where Antônio kept the “robbery” money and ransacked the house to look for it. They were referring to the money taken from Ademar de Barros' safe, in an action carried out by the Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), the amount of which was divided between some resistance groups to finance the fight against the dictatorship.

In this division, Antônio received an amount destined for the ALN, in Ceará. The police made it easier for the police to locate him by exchanging a US$100.00 bill. Iunele also reported that she was later taken by police officers to the police station in the city of Brejo Santo to give a statement and recognize the agents. However, he did not recognize any of the police officers, as they were disguised when the crime was carried out, wearing work overalls.

According to the testimony of one of the daughters, the night following Antônio's burial, the police dug up the body and broke his fingers to remove Antônio's fingerprints.

Antônio Bem Cardoso murió el 1 de junio de 1970, ejecutado por agentes de la Policía Federal en su casa. Según el relato de su esposa Iunele Vieira Cardoso, al despertar y abrir la puerta del patio trasero para lavarse los dientes, en la madrugada del 1 de junio de 1970, Antônio Bem Cardoso fue sorprendido por agentes de la Policía Federal que le dispararon en el pecho.

Despertada por el sonido del disparo, Iunele lo escuchó correr por el pasillo de la casa y gritar: “Me dispararon”. Incluso después de que dispararan a Antônio, la policía siguió ametrallando la casa con Iulene y sus hijas dentro. Desde la calle se escuchaban voces ordenando a Antônio que se rindiera. Según Iunele, estas órdenes fueron dadas por agentes de la Policía Federal que, al entrar en la residencia de las víctimas, sacaron a Antônio, cubierto de sangre y en agonía, de los brazos de su esposa. La policía obligó a Iunele y a sus hijas a abandonar su casa bajo amenaza de muerte.

Todas las personas, amigos y familiares que se acercaron para brindar ayuda y solidaridad con las víctimas fueron retirados y/o detenidos por la policía. Según la versión policial, Antônio era buscado por fraude. Su esposa afirmó en su denuncia que la policía le preguntó dónde guardaba Antônio el dinero del “robo” y saquearon la casa para buscarlo. Se referían al dinero sustraído de la caja fuerte de Ademar de Barros, en una acción llevada a cabo por la Vanguarda Popular Revolucionaria (VPR), cuyo monto fue dividido entre algunos grupos de la resistencia para financiar la lucha contra la dictadura.

En esa división, Antônio recibió un monto destinado a la ALN, en Ceará. La policía facilitó su localización intercambiando un billete de 100 dólares estadounidenses. Iunele también informó que posteriormente fue trasladada por agentes policiales a la comisaría de la ciudad de Brejo Santo para prestar declaración y reconocer a los agentes. Sin embargo, no reconoció a ninguno de los policías, ya que estaban disfrazados cuando se cometió el crimen, vistiendo monos de trabajo.

Según el testimonio de una de las hijas, la noche siguiente al entierro de Antônio, la policía desenterró el cuerpo y le rompió los dedos para eliminar las huellas dactilares de Antônio.

Diante das investigações realizadas, conclui-se que Antônio Bem Cardoso foi morto em decorrência de ação praticada por agentes do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar, implantada no país a partir de abril de 1964.

Recomenda-se a continuidade das investigações sobre as circunstâncias do caso, para a identificação e responsabilização dos agentes e dos órgãos envolvidos.

In view of the investigations carried out, it is concluded that Antônio Bem Cardoso was killed as a result of actions carried out by agents of the Brazilian State, in the context of systematic human rights violations promoted by the military dictatorship, implemented in the country from April 1964.

It is recommended that investigations into the circumstances of the case continue to identify and hold the agents and bodies involved accountable.

A la vista de las investigaciones realizadas, se concluye que Antônio Bem Cardoso fue asesinado como resultado de acciones realizadas por agentes del Estado brasileño, en el contexto de violaciones sistemáticas de derechos humanos promovidas por la dictadura militar, implementada en el país a partir de abril de 1964.

Se recomienda continuar con las investigaciones sobre las circunstancias del caso para identificar y responsabilizar a los agentes y organismos involucrados.

*Texto retirado de memoriasdaditadura.org.br

ORDEM E PROGRESSO