Celso
Gilberto
de Oliveira
CIRCUNSTÂNCIAS DA MORTE
No dia 7 de agosto de 1970, o embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, foi sequestrado por integrantes da VPR, que exigiram do governo ditatorial a libertação de 70 presos políticos. Naqueles dias, os órgãos de segurança e informações procuravam, de toda forma, obter subsídios que permitissem a identificação do local de cativeiro do embaixador.
A prisão de Celso Gilberto de Oliveira ocorreu, portanto, nesse contexto. Entre os dias 9 e 10 de dezembro, a documentação diverge sobre a data, ele foi preso por agentes do Centro de Informações da Aeronáutica – CISA, comandados pelo capitão Barroso. Posteriormente, também há divergência em relação a essa data, Celso Gilberto foi remetido, dia 11 ou 18, ao DOI-CODI/I Exército, que funcionava no 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, onde foi submetido a torturas e interrogatórios.
De acordo com o Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil, com base em denúncias feitas por outros presos políticos, Celso Gilberto foi torturado no DOICODI/I Ex. pelos tenentes do Exército conhecidos por “Hulk”, “Teles” e “James”. O ex-preso político Sinfrônio Mesa Netto relata ainda que, entre os dias 24 e 25 de dezembro, foi acareado com Celso, ocasião em que pôde constatar as torturas e maus tratos que Celso vinha sofrendo. Em um dos interrogatórios a que foi submetido, consta que o militante da VPR prestou informações sobre o local em que o embaixador suíço vinha sendo mantido.
Durante a diligência de verificação, segundo a versão oficial, Celso Gilberto teria empreendido uma tentativa malograda de fuga, vindo, então, a falecer após ser perseguido e baleado fatalmente. Abaixo, segue a íntegra da versão oficial, em documento confidencial da Agência Rio de Janeiro do Serviço Nacional de Informações, datado de 4 de janeiro de 1971:
“O I-Ex realizou diligências, na madrugada do dia 30 DEZ, para verificar se as declarações de CELSO, [sic] sobre o local de guarda do Embaixador eram corretos [sic]. Os resultados dessas diligências foram negativos, mas quando a mesma se realizava, CELSO desvencilhou-se dos elementos que o guardavam, e em desabalada carreira tentou a fuga embrenhando-se na vegetação que margeia a estrada, sendo perseguido e alvejado, falecendo em consequência dos tiros recebidos.”
A morte de Celso Gilberto de Oliveira é reconhecida, de forma explícita e detalhada, no documento oficial cujo trecho foi acima transcrito. O mesmo reconhecimento ocorre na Informação no 44/CISA-RJ, de 19 de janeiro de 1971, de autoria do Centro de Informações da Aeronáutica. No anexo desse documento, consta uma extensa lista de militantes, aliados e simpatizantes das organizações que faziam oposição ao regime militar, registrando eventuais codinomes e a situação de cada um (por exemplo, se a pessoa estava presa ou morta).
Esse documento foi distribuído a inúmeros órgãos de segurança e informações, como a Agência Central do Serviço Nacional de Informações, o Centro de Inteligência do Exército e o Centro de Informações da Marinha, para citar apenas os órgãos centrais. Nele, consta que Celso Gilberto de Oliveira, o “Alan”, já havia “falecido”. Curioso e significativo é notar que, meses depois, em documento com as mesmas características do anterior, a Informação no 160/CISA-BR, de 6 de outubro de 1971, registrava apenas que Celso Gilberto encontrava-se “preso”.
No mesmo sentido, em nenhum dos relatórios entregues pelas Forças Armadas ao Ministro da Justiça Maurício Corrêa em 1993, há o reconhecimento da morte de Celso Gilberto. O relatório do Ministro do Exército afirma que Celso fora preso pelo CISA em 9 de dezembro e entregue ao DOI-CODI/I Ex. dois dias depois. Interrogado no dia 29, teria admitido participação no sequestro do embaixador suíço no Brasil e dado informações sobre o local do cativeiro, o que ensejou uma diligência de verificação. Nessa ocasião, “comprovada a farsa [da informação], [Celso] empreendeu fuga conseguindo evadir-se, fato confirmado pelo relatório da Operação Petrópolis de responsabilidade do DOICODI/I Ex”.
O relatório da Marinha, por sua vez, aponta o dia 10 de dezembro como a data da prisão e registra que o preso foi levado para o quartel do Batalhão de Polícia do Exército, no dia 18. E, finalmente, o relatório da Aeronáutica reitera a versão dada pelo Exército. Em todos os três casos, nada se diz sobre a morte de Celso Gilberto. Por outro lado, uma vez reconhecida, em fontes documentais, a morte de Celso Gilberto, resta também configurado o crime de desaparecimento forçado, por meio de ocultação de cadáver.
Finalmente, registra-se a tentativa do DOI-CODI/I Ex. de encobrir a informação sobre a morte do militante, por meio da divulgação de um relatório em que consta que o prisioneiro teria simplesmente se evadido e não morrido, como de fato ocorreu, após perseguição e ferimentos mortais causados por balas. Fazemos menção ao “Relatório da Operação Petrópolis”, consignado no relatório do Ministro do Exército entregue ao Ministro da Justiça – documento, por sinal, não localizado nos acervos da ditadura militar custodiados pelo Arquivo Nacional.
On August 7, 1970, the Swiss ambassador to Brazil, Giovanni Enrico Bucher, was kidnapped by members of the VPR, who demanded from the dictatorial government the release of 70 political prisoners. In those days, security and intelligence agencies sought, in any way possible, to obtain information that would allow them to identify the ambassador's place of captivity.
The arrest of Celso Gilberto de Oliveira therefore occurred in this context. Between the 9th and 10th of December, the documentation differs on the date, he was arrested by agents from the Aeronautics Information Center – CISA, commanded by Captain Barroso. Subsequently, there is also disagreement regarding this date. Celso Gilberto was sent, on the 11th or 18th, to the DOI-CODI/I Army, which worked in the 1st Army Police Battalion, on Rua Barão de Mesquita, in Rio de Janeiro, where he was subjected to torture and interrogation.
According to the Dossier of Political Dead and Disappeared in Brazil, based on complaints made by other political prisoners, Celso Gilberto was tortured at DOICODI/I Ex. by Army lieutenants known as “Hulk”, “Teles” and “James”. Former political prisoner Sinfrônio Mesa Netto also reports that, between December 24th and 25th, he was confronted by Celso, when he was able to see the torture and mistreatment that Celso had been suffering. In one of the interrogations he was subjected to, it appears that the VPR activist provided information about the place where the Swiss ambassador was being held.
During the verification process, according to the official version, Celso Gilberto made an unsuccessful attempt to escape and then died after being chased and fatally shot. Below is the full official version, in a confidential document from the Rio de Janeiro Agency of the National Information Service, dated January 4, 1971:
"The I-Ex carried out investigations, in the early hours of the 30th DEC, to verify whether CELSO's statements, [sic] about the Ambassador's place of custody were correct [sic]. The results of these investigations were negative, but when they were carried out, CELSO freed himself from the elements guarding him, and in a reckless race he attempted to escape by entering the vegetation that borders the road, being chased and shot, dying as a result of the shots received.”
The death of Celso Gilberto de Oliveira is recognized, explicitly and in detail, in the official document, the excerpt of which was transcribed above. The same recognition occurs in Information no. 44/CISA-RJ, dated January 19, 1971, authored by the Aeronautics Information Center. The annex to this document contains an extensive list of militants, allies and supporters of organizations that opposed the military regime, recording any code names and the situation of each one (for example, whether the person was imprisoned or dead).
This document was distributed to numerous security and intelligence agencies, such as the Central Agency of the National Intelligence Service, the Army Intelligence Center and the Navy Information Center, to name just the central agencies. It states that Celso Gilberto de Oliveira, “Alan”, had already “passed away”. It is curious and significant to note that, months later, in a document with the same characteristics as the previous one, Information no. 160/CISA-BR, dated October 6, 1971, only recorded that Celso Gilberto was “arrested”.
In the same sense, none of the reports delivered by the Armed Forces to the Minister of Justice Maurício Corrêa in 1993 acknowledge the death of Celso Gilberto. The Army Minister's report states that Celso was arrested by CISA on December 9 and handed over to DOI-CODI/I Ex. two days later. Interrogated on the 29th, he admitted participating in the kidnapping of the Swiss ambassador in Brazil and gave information about the location of his captivity, which led to an investigation. On that occasion, “the [information] farce was proven, [Celso] undertook an escape, managing to escape, a fact confirmed by the report of Operation Petrópolis under the responsibility of DOICODI/I Ex”.
The Navy report, in turn, points to December 10th as the date of the arrest and records that the prisoner was taken to the Army Police Battalion barracks on the 18th. And, finally, the Air Force report reiterates the version given by the Army. In all three cases, nothing is said about Celso Gilberto's death. On the other hand, once the death of Celso Gilberto was recognized in documentary sources, the crime of forced disappearance, through the concealment of a corpse, also remains.
Finally, DOI-CODI/I Ex. attempted to cover up the information about the militant's death by publishing a report stating that the prisoner simply escaped and did not die, as in fact occurred, after being chased and fatally injured by bullets. We mention the “Petrópolis Operation Report”, contained in the report of the Minister of the Army delivered to the Minister of Justice – a document, by the way, not located in the collections of the military dictatorship held by the National Archives.
El 7 de agosto de 1970, el embajador de Suiza en Brasil, Giovanni Enrico Bucher, fue secuestrado por miembros del VPR, que exigían al gobierno dictatorial la liberación de 70 presos políticos. En aquellos días, los organismos de seguridad y de inteligencia buscaban, por todos los medios posibles, obtener información que les permitiera identificar el lugar de cautiverio del embajador.
Por tanto, la detención de Celso Gilberto de Oliveira se produjo en este contexto. Entre el 9 y 10 de diciembre, la documentación difiere sobre la fecha, fue detenido por agentes del Centro de Información Aeronáutica – CISA, comandados por el capitán Barroso. Posteriormente, también existe desacuerdo respecto a esta fecha. Celso Gilberto fue enviado, los días 11 o 18, al Ejército DOI-CODI/I, que actuaba en el 1.er Batallón de Policía del Ejército, en la Rua Barão de Mesquita, en Río de Janeiro, donde fue sometido a torturas e interrogatorios.
Según el Dossier de Muertos y Desaparecidos Políticos en Brasil, basado en denuncias de otros presos políticos, Celso Gilberto fue torturado en el DOICODI/I Ex. por tenientes del Ejército conocidos como “Hulk”, “Teles” y “James”. El ex preso político Sinfrônio Mesa Netto también relata que, entre los días 24 y 25 de diciembre, fue confrontado por Celso, cuando pudo ver las torturas y malos tratos que venía sufriendo Celso. En uno de los interrogatorios al que fue sometido, parece que el activista del VPR proporcionó información sobre el lugar donde se encontraba detenido el embajador suizo.
Durante el proceso de verificación, según la versión oficial, Celso Gilberto hizo un intento fallido de fuga y luego murió tras ser perseguido y asesinado a tiros. A continuación se muestra la versión oficial íntegra, en documento confidencial de la Agencia Rio de Janeiro del Servicio Nacional de Información, de fecha 4 de enero de 1971:
“El I-Ex realizó investigaciones, en la madrugada del día 30 de diciembre, para verificar si las declaraciones de CELSO, [sic] sobre el lugar de custodia del Embajador eran correctas [sic]. Los resultados de estas investigaciones fueron negativos, pero al realizarse, CELSO se liberó de los elementos que lo custodiaban, y en una carrera temeraria intentó escapar adentrándose en la vegetación que bordea la vía, siendo perseguido y baleado, muriendo a consecuencia de los disparos recibidos.”
La muerte de Celso Gilberto de Oliveira está reconocida, explícita y detalladamente, en el documento oficial, cuyo extracto se transcribe arriba. El mismo reconocimiento ocurre en la Información núm. 44/CISA-RJ, de 19 de enero de 1971, elaborado por el Centro de Información Aeronáutica. El anexo de este documento contiene una extensa lista de militantes, aliados y partidarios de organizaciones opositoras al régimen militar, registrando sus nombres en clave y la situación de cada uno (por ejemplo, si la persona estaba encarcelada o muerta).
Este documento fue distribuido a numerosas agencias de seguridad e inteligencia, como la Agencia Central del Servicio Nacional de Inteligencia, el Centro de Inteligencia del Ejército y el Centro de Información de la Marina, por nombrar sólo las agencias centrales. Señala que Celso Gilberto de Oliveira, “Alan”, ya había “fallecido”. Es curioso y significativo constatar que, meses después, en un documento de las mismas características que el anterior, la Información núm. 160/CISA-BR, de 6 de octubre de 1971, sólo registró que Celso Gilberto fue “detenido”.
En el mismo sentido, ninguno de los informes entregados por las Fuerzas Armadas al Ministro de Justicia Maurício Corrêa en 1993 reconoce la muerte de Celso Gilberto. El informe del Ministro del Ejército señala que Celso fue detenido por CISA el 9 de diciembre y entregado al DOI-CODI/I Ex. dos días después. Interrogado el día 29, admitió haber participado en el secuestro del embajador de Suiza en Brasil y dio información sobre el lugar de su cautiverio, lo que dio lugar a una investigación. En aquella ocasión “quedó comprobada la farsa [informativa], [Celso] emprendió una fuga, logrando escapar, hecho confirmado por el informe de la Operación Petrópolis a cargo del DOICODI/I Ex”.
El informe de la Marina, por su parte, señala el 10 de diciembre como fecha de la detención y registra que el detenido fue trasladado al cuartel del Batallón de Policía del Ejército el día 18. Y, finalmente, el informe del Ejército del Aire reitera la versión dada por el Ejército. En los tres casos nada se dice sobre la muerte de Celso Gilberto. Por otro lado, reconocida en fuentes documentales la muerte de Celso Gilberto, también permanece el delito de desaparición forzada, mediante ocultación de un cadáver.
Finalmente, DOI-CODI/I Ex. intentó encubrir la información sobre la muerte del militante publicando un informe en el que afirmaba que el prisionero simplemente escapó y no murió, como en realidad ocurrió, tras ser perseguido y herido mortalmente a balazos. Mencionamos el “Informe de Operación Petrópolis”, contenido en el informe del Ministro del Ejército entregado al Ministro de Justicia – documento, por cierto, no ubicado en las colecciones de la dictadura militar en poder del Archivo Nacional.
*Texto retirado de memoriasdaditadura.org.br