Foto de Enrique Ernesto Ruggia

Enrique
Ernesto
Ruggia

25/7/1955 - 1974
Corrientes, Argentina
Estudante UniversitárioCollege studentestudiante universitario

O argentino Enrique Ernesto Ruggia foi um dos militantes da VPR intensamente monitorados e perseguidos pelos agentes de informação e segurança do Estado. Em 1973, seis militantes da organização foram presos e mortos em Pernambuco. O episódio, que ficou conhecido como Chacina da Chácara São Bento, evidencia a forma de atuação articulada dos órgãos de informações, militares e agentes infiltrados nos movimentos políticos.

O papel de “Cabo” Anselmo, na operação de execução dos integrantes da VPR em Pernambuco, foi reproduzido na Operação Juriti, em Foz do Iguaçu, na figura do ex-militante infiltrado Alberi Vieira dos Santos. Ligado ao grupo de Leonel Brizola e liderança na Guerrilha de Três Passos, Alberi trabalhou para o CIE, Centro de Informações do Exército, com a função de atrair militantes da VPR que se encontravam na Argentina para uma emboscada no sul do Brasil.

Documentos produzidos pelos órgãos da ditadura militar comprovam a atuação de Alberi como agente a serviço da repressão, como o Informe 22-165/74, do Departamento Central de Informações da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, de 1º de agosto de 1974. O documento revela a coordenação de atividades de Alberi na fronteira brasileira, cuja principal missão era a de “infiltrar-se entre ex-companheiros para espioná-los e posteriormente entregá-los para o Exército.”

A relação de Alberi com o ex-sargento Onofre Pinto, então dirigente da VPR, facilitou a articulação da Operação Juriti, em que Alberi organizou a volta do grupo de exilados que haviam saído do Chile em função do golpe militar, em 1973, e estavam na Argentina. Os irmãos Joel José de Carvalho e Daniel José de Carvalho; José Lavecchia, Vítor Carlos Ramos, Onofre Pinto, militantes da VPR, e o argentino Enrique Ernesto Ruggia foram convencidos a retornar ao Brasil.

Para o retorno dos militantes, já havia uma rota estabelecida pelos contatos de Alberi no Chile, Argentina e Brasil. Onofre Pinto foi monitorado por agentes da repressão e de informações brasileiros, chilenos e argentinos. Alberi, apesar do papel central na operação, teve o apoio local do agente do CIE em Foz do Iguaçu, Otávio Rainolfo da Silva, que atuava como Otávio Camargo e foi apresentado ao grupo como apoio da VPR no Paraná. A operação contou também com uma rede de militares, como Paulo Malhães, que declarou ser controlador de Alberi no CIE; além do sargento do CIE Rubens Gomes Carneiro (codinome “Laecato Boa Morte”); major do CIE, Rubens Paim Sampaio; os soldados do CIE, Antonio Waneir Pinheiro Lima (codinome “Camarão”) e o agente ainda não identificado, conhecido como “Presuntinho”.

Entre os militares envolvidos, Otávio e Malhães acrescentaram informações importantes sobre o caso em depoimentos prestados à CNV. Em 11 de julho de 1974, o grupo saiu de Buenos Aires acompanhando Alberi em direção à fronteira com Brasil, no Paraná, onde Otávio os aguardava. Seguiram em uma Rural Willys para o sítio de Niquinho Leite, primo de Alberi, distrito de Boa Vista do Capanema, em Santo Antônio do Sudoeste (PR).

Apenas no dia 13 de julho, os exilados chegaram ao sítio, onde passaram a planejar e articular as ações que fariam em solo brasileiro. A primeira atividade seria ir ao Parque Nacional do Iguaçu, onde haveria um acampamento-base e armas escondidas e, no segundo dia, partiriam para Medianeira (PR) para expropriar uma agência bancária. Os militantes se dividiram e apenas Onofre Pinto permaneceu no sítio, enquanto Joel José de Carvalho, Daniel José de Carvalho, José Lavecchia, Vitor Carlos Ramos e Enrique Ernesto Ruggia acompanharam Alberi e Otávio, que rumaram para o Parque Nacional do Iguaçu.

A emboscada já estava montada e, após percorrerem cerca de seis quilômetros na estrada do Colono, dentro do Parque, o grupo estacionou e seguiu um pequeno trecho caminhando até chegaram ao ponto combinado entre os agentes do CIE. Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em 28 de junho de 2013, o agente do CIE à época, Otávio Rainolfo da Silva, descreveu que o local “era uma trilha, que dava para passar carro. (…) Quando parei o carro, não andamos 30, 40 metros, e aconteceu.”

Os cinco militantes da VPR, emboscados, foram fuzilados pelo grupo de militares postados em cunha, enquanto os agentes infiltrados do CIE, Alberi e Otávio, procuraram abrigar-se dos tiros. Esse era o combinado para a operação, Alberi e Otávio sairiam da linha de tiro, uma abundante rajada de balas de grosso calibre desferida contra as vítimas, ainda surpresas pelo clarão dos faróis que foram acesos na floresta para iluminar os alvos.

Enrique Ruggia, mesmo depois de alvejado, ainda teria resistido, mas um dos soldados fez novos disparos, com ele caído ao chão, para terminar de executá-lo. Além dos militares já citados como pertencentes à operação, participaram da execução do grupo os tenentes do Batalhão de Foz do Iguaçu, Aramis Ramos Pedrosa e Jamil Jomar de Paula. Onofre Pinto, que não acompanhara o grupo, foi levado para o mesmo caminho algumas horas após a morte de seus companheiros. Conduzido pela dupla Alberi e Otávio, o dirigente da VPR percebeu algo de errado na operação e tentou correr, mas foi detido. Preso e levado vivo para Foz do Iguaçu, foi morto após interrogatório sob tortura. O caso é tratado com mais detalhes no capítulo 13 deste relatório.

Argentinean Enrique Ernesto Ruggia was one of the VPR militants who was intensely monitored and persecuted by state information and security agents. In 1973, six members of the organization were arrested and killed in Pernambuco. The episode, which became known as the Chacina da Chácara São Bento, highlights the coordinated action of intelligence agencies, the military and agents infiltrated in political movements.

The role of “Corporal” Anselmo, in the execution operation of VPR members in Pernambuco, was reproduced in Operation Juriti, in Foz do Iguaçu, in the figure of former infiltrated militant Alberi Vieira dos Santos. Linked to Leonel Brizola's group and leadership in the Três Passos Guerrilla, Alberi worked for the CIE, Army Information Center, with the task of attracting VPR militants who were in Argentina to an ambush in southern Brazil.

Documents produced by the bodies of the military dictatorship prove Alberi's role as an agent in the service of repression, such as Report 22-165/74, from the Central Information Department of the Public Security Secretariat of Rio Grande do Sul, dated August 1, 1974. The document reveals the coordination of Alberi's activities on the Brazilian border, whose main mission was to “infiltrate among former comrades to spy on them and later hand them over to the Army.”

Alberi's relationship with former sergeant Onofre Pinto, then leader of the VPR, facilitated the coordination of Operation Juriti, in which Alberi organized the return of the group of exiles who had left Chile due to the military coup in 1973 and were in Argentina. Brothers Joel José de Carvalho and Daniel José de Carvalho; José Lavecchia, Vítor Carlos Ramos, Onofre Pinto, VPR activists, and Argentine Enrique Ernesto Ruggia were convinced to return to Brazil.

For the militants' return, there was already a route established by Alberi's contacts in Chile, Argentina and Brazil. Onofre Pinto was monitored by Brazilian, Chilean and Argentine repression and intelligence agents. Alberi, despite his central role in the operation, had the local support of the CIE agent in Foz do Iguaçu, Otávio Rainolfo da Silva, who acted as Otávio Camargo and was introduced to the group as support for VPR in Paraná. The operation also included a network of military personnel, such as Paulo Malhães, who declared that he was Alberi's controller at the CIE; in addition to CIE sergeant Rubens Gomes Carneiro (codename “Laecato Boa Morte”); CIE major, Rubens Paim Sampaio; the CIE soldiers, Antonio Waneir Pinheiro Lima (codename “Camarão”) and the still unidentified agent, known as “Presuntinho”.

Among the soldiers involved, Otávio and Malhães added important information about the case in statements provided to the CNV. On July 11, 1974, the group left Buenos Aires following Alberi towards the border with Brazil, in Paraná, where Otávio was waiting for them. They went in a Rural Willys to the farm of Niquinho Leite, Alberi's cousin, Boa Vista do Capanema district, in Santo Antônio do Sudoeste (PR).

Only on July 13th did the exiles arrive at the site, where they began to plan and articulate the actions they would carry out on Brazilian soil. The first activity would be to go to the Iguaçu National Park, where there would be a base camp and hidden weapons and, on the second day, they would leave for Medianeira (PR) to expropriate a bank branch. The militants split up and only Onofre Pinto remained at the site, while Joel José de Carvalho, Daniel José de Carvalho, José Lavecchia, Vitor Carlos Ramos and Enrique Ernesto Ruggia accompanied Alberi and Otávio, who headed towards the Iguaçu National Park.

The ambush was already set up and, after traveling approximately six kilometers on the Colono road, inside the Park, the group parked and walked a short distance until they reached the point agreed between the CIE agents. In a statement to the National Truth Commission, on June 28, 2013, the CIE agent at the time, Otávio Rainolfo da Silva, described that the place “was a trail, where a car could pass by. (…) When I stopped the car, we didn’t walk 30, 40 meters, and it happened.”

The five VPR militants, ambushed, were shot by the group of soldiers posted in a wedge, while the CIE infiltrated agents, Alberi and Otávio, tried to take shelter from the gunfire. This was the agreement for the operation, Alberi and Otávio would leave the firing line, an abundant volley of large-caliber bullets fired at the victims, still surprised by the flash of the headlights that were turned on in the forest to illuminate the targets.

Enrique Ruggia, even after being shot, would still have resisted, but one of the soldiers fired again, with him lying on the ground, to finish executing him. In addition to the military personnel already mentioned as belonging to the operation, lieutenants from the Foz do Iguaçu Battalion, Aramis Ramos Pedrosa and Jamil Jomar de Paula, participated in the group's execution. Onofre Pinto, who had not accompanied the group, was taken to the same path a few hours after the death of his companions. Led by the duo Alberi and Otávio, the VPR leader noticed something wrong in the operation and tried to run, but was detained. Arrested and taken alive to Foz do Iguaçu, he was killed after interrogation under torture. The case is covered in more detail in chapter 13 of this report.

El argentino Enrique Ernesto Ruggia fue uno de los militantes del VPR que fue intensamente monitoreado y perseguido por agentes de información y seguridad del Estado. En 1973, seis miembros de la organización fueron arrestados y asesinados en Pernambuco. El episodio, que pasó a conocerse como la Chacina da Chácara São Bento, destaca la acción coordinada de agencias de inteligencia, militares y agentes infiltrados en movimientos políticos.

El papel del “cabo” Anselmo, en la operación de ejecución de miembros del VPR en Pernambuco, fue reproducido en la Operación Juriti, en Foz do Iguaçu, en la figura del ex militante infiltrado Alberi Vieira dos Santos. Vinculado al grupo de Leonel Brizola y a la dirección de la Guerrilla de Três Passos, Alberi trabajó para el CIE, Centro de Información del Ejército, con la tarea de atraer a militantes del VPR que se encontraban en Argentina para una emboscada en el sur de Brasil.

Documentos producidos por los órganos de la dictadura militar prueban el papel de Alberi como agente al servicio de la represión, como el Informe 22-165/74, del Departamento Central de Información de la Secretaría de Seguridad Pública de Rio Grande do Sul, de fecha 1 de agosto de 1974. El documento revela la coordinación de las actividades de Alberi en la frontera con Brasil, cuya principal misión era “infiltrarse entre ex compañeros para espiarlos y luego entregarlos al Ejército”.

La relación de Alberi con el ex sargento Onofre Pinto, entonces líder del VPR, facilitó la coordinación de la Operación Juriti, en la que Alberi organizó el regreso del grupo de exiliados que habían abandonado Chile por el golpe militar de 1973 y se encontraban en Argentina. los hermanos Joel José de Carvalho y Daniel José de Carvalho; José Lavecchia, Vítor Carlos Ramos, Onofre Pinto, activistas del VPR y el argentino Enrique Ernesto Ruggia fueron convencidos de regresar a Brasil.

Para el regreso de los militantes ya existía una ruta establecida por los contactos de Alberi en Chile, Argentina y Brasil. Onofre Pinto fue monitoreado por agentes de represión e inteligencia brasileños, chilenos y argentinos. Alberi, a pesar de su papel central en la operación, contó con el apoyo local del agente del CIE en Foz do Iguaçu, Otávio Rainolfo da Silva, quien actuó como Otávio Camargo y fue presentado al grupo como apoyo del VPR en Paraná. La operación también incluyó una red de militares, como Paulo Malhães, quien declaró ser el interventor de Alberi en el CIE; además del sargento del CIE Rubens Gomes Carneiro (nombre clave “Laecato Boa Morte”); el Mayor del CIE, Rubens Paim Sampaio; los soldados del CIE, Antonio Waneir Pinheiro Lima (nombre en clave “Camarão”) y el agente aún no identificado, conocido como “Presuntinho”.

Entre los militares involucrados, Otávio y Malhães agregaron importantes informaciones sobre el caso en declaraciones brindadas a la CNV. El 11 de julio de 1974, el grupo salió de Buenos Aires siguiendo a Alberi hacia la frontera con Brasil, en Paraná, donde los esperaba Otávio. Se dirigieron en un Willys Rural a la hacienda de Niquinho Leite, primo de Alberi, en el barrio de Boa Vista do Capanema, en Santo Antônio do Sudoeste (PR).

Recién el 13 de julio llegaron los exiliados al lugar, donde comenzaron a planificar y articular las acciones que llevarían a cabo en suelo brasileño. La primera actividad sería ir al Parque Nacional Iguazú, donde habría un campamento base y armas escondidas y, el segundo día, partirían hacia Medianeira (PR) para expropiar una sucursal bancaria. Los militantes se dispersaron y en el lugar sólo quedó Onofre Pinto, mientras Joel José de Carvalho, Daniel José de Carvalho, José Lavecchia, Vitor Carlos Ramos y Enrique Ernesto Ruggia acompañaron a Alberi y Otávio, que se dirigieron hacia el Parque Nacional Iguazú.

La emboscada ya estaba montada y, tras recorrer aproximadamente seis kilómetros por la carretera de Colono, dentro del Parque, el grupo estacionó y caminó un corto trecho hasta llegar al punto acordado entre los agentes del CIE. En declaración ante la Comisión Nacional de la Verdad, el 28 de junio de 2013, el entonces agente del CIE, Otávio Rainolfo da Silva, describió que el lugar “era un sendero, por donde podía pasar un auto (…) Cuando paré el auto, no caminamos 30, 40 metros, y sucedió”.

Los cinco militantes del VPR, emboscados, fueron fusilados por el grupo de militares apostados en cuña, mientras los agentes infiltrados del CIE, Alberi y Otávio, intentaban resguardarse de los disparos. Este era el acuerdo para el operativo, Alberi y Otávio abandonarían la línea de fuego, una abundante ráfaga de balas de gran calibre disparadas contra las víctimas, aún sorprendidos por el destello de los faros que se encendían en el bosque para iluminar los objetivos.

Enrique Ruggia, incluso después de recibir un disparo, aún habría resistido, pero uno de los militares volvió a disparar, dejándolo tendido en el suelo, para terminar de ejecutarlo. Además de los militares ya mencionados como pertenecientes al operativo, en la ejecución del grupo participaron los tenientes del Batallón Foz do Iguaçu, Aramis Ramos Pedrosa y Jamil Jomar de Paula. Onofre Pinto, que no acompañaba al grupo, fue llevado por el mismo camino pocas horas después de la muerte de sus compañeros. Liderado por la dupla Alberi y Otávio, el líder del VPR notó algo mal en el operativo e intentó huir, pero fue detenido. Detenido y llevado vivo a Foz do Iguaçu, fue asesinado tras interrogarlo bajo tortura. El caso se trata con más detalle en el capítulo 13 de este informe.

Diante das investigações realizadas, conclui-se que Enrique Ernesto Ruggia foi executado e desapareceu pela ação de agentes do Estado brasileiro, em um contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela Ditadura Militar, implantada no país a partir de abril de 1964.

Recomenda-se a continuidade das investigações sobre as circunstâncias do caso, para a localização de seus restos mortais e a identificação e responsabilização dos agentes envolvidos.

In view of the investigations carried out, it is concluded that Enrique Ernesto Ruggia was executed and disappeared by the actions of agents of the Brazilian State, in a context of systematic human rights violations promoted by the Military Dictatorship, implemented in the country from April 1964.

It is recommended that investigations continue into the circumstances of the case, to locate his remains and identify and hold the agents involved accountable.

A la vista de las investigaciones realizadas, se concluye que Enrique Ernesto Ruggia fue ejecutado y desaparecido por acción de agentes del Estado brasileño, en un contexto de violaciones sistemáticas de derechos humanos promovidas por la Dictadura Militar, implementada en el país a partir de abril de 1964.

Se recomienda continuar con las investigaciones sobre las circunstancias del caso, para localizar sus restos e identificar y responsabilizar a los agentes involucrados.

*Texto retirado de memoriasdaditadura.org.br

ORDEM E PROGRESSO