Foto de João de Carvalho Barros

João
de Carvalho
Barros

24/7/1908 - 1964
São Borja, RS
VeterinárioVeterinarianVeterinario

João de Carvalho Barros morreu no dia 2 de abril de 1964 em sua residência, na cidade de Belo Horizonte. Às 20h45, teriam entrado cerca de 30 homens armados em sua casa, vestidos de terno e gravata, que irromperam atirando.

João foi o primeiro a ser atingido, falecendo em seguida. Sua filha Catarina Maria Barros, de 17 anos, também foi atingida, ficando gravemente ferida na região torácica dorsal, fato que teria deixado sequelas irreversíveis na jovem. Por último, a esposa de João, Benedita Carvalho, foi atingida com um tiro de raspão no braço. Toda a família teria sido ameaçada pelos indivíduos que invadiram a casa, os quais também quebraram móveis e apreenderam objetos pessoais de João.

O grupo de homens armados deixou a residência da família em jeeps e carros “chapa branca”, como apontou a declaração da vizinha Laura dos Santos Soares e, no momento seguinte, a Polícia Civil assomou ao local, providenciando a remoção do corpo de João Carvalho para o Instituto Médico-Legal (IML), onde foi realizada a necropsia. Sua filha e esposa foram levadas para o Pronto Socorro João XXIII, onde Catarina sofreu intervenção cirúrgica.

Em decorrência de uma parada cardíaca durante a cirurgia, Catarina teve uma lesão que foi se agravando ao longo do tempo. De acordo com o registro de óbito de João, assinado pelo dr. Christobaldo Mata de Almeida, o falecimento ocorreu em consequência de “feridas pérfuro-contusas por projétil de arma de fogo”. Nos dias que se seguiram à morte, os meios de comunicação impressos publicaram diferentes versões para o ocorrido.

Na edição do Correio da Manhã de 5 de abril de 1964 consta que “elementos não identificados assassinaram, com cinco tiros, o Sr. João de Carvalho Barros, veterinário, participante de movimentos considerados esquerdistas, em sua própria casa […]. Antes de fugir, em três jipes, os assassinos depredaram a residência e raptaram um negociante, testemunha. […] A polícia acredita que se trate de crime político, em vista da posição política da vítima”. Em outra edição do Correio da Manhã, de 10 de abril de 1964, consta que as associações evangélicas de Belo Horizonte teriam enviado um telegrama ao governador Magalhães Pinto, solicitando a tomada de providências contra os responsáveis pelo assassinato do pastor protestante.

Segundo a reportagem, o telegrama apelara ao governador para que fossem “erradicados os focos de subversão responsáveis por tais atos”. Na edição do Diário da Tarde de 4 de abril de 1964, o assassinato é imputado ao negociante José Nogueira Soares, “comunista fichado, líder do núcleo proletário da região” que havia planejado o cerco junto a um grupo de fanáticos. No entanto, o suspeito nunca foi preso nem processado judicialmente.

Por sua vez, a edição do Estado de Minas de 4 de abril de 1964 aponta que José Nogueira era o proprietário do bar no qual o grupo armado bebia antes de invadir a casa de João de Carvalho. Segundo o periódico: “pelo que conseguimos apurar, os principais suspeitos da autoria do crime, são vários indivíduos que bebiam em um bar existente nas proximidades da casa do Sr. João de Carvalho, de propriedade de José Nogueira, os quais teriam invadido a casa do pastor, arrombando as portas, estilhaçando os vidros e disparando vários tiros”.

No depoimento da vizinha de João, Laura Soares, que tinha 13 anos quando assistiu de sua casa a invasão da residência da família Carvalho por vários homens que saíram de veículos oficiais, o grupo armado parecia ser formado por agentes do Estado. A incursão foi seguida por tiros – lembrando uma guerra – e gritos da família. O depoimento de Catarina Maria Barros, filha de João, aponta que na noite do dia 2 de abril de 1964, ela e seus irmãos foram acordados com os tiros de metralhadora e que quando se dirigiu à sala, encontrou seu pai morto.

Catarina ficou imóvel diante dos gritos de sua mãe, que fora atingida de raspão no braço, seus irmãos menores e sua própria ferida, produto de um tiro disparado na região abdominal de seu corpo. O relato do diretor do PTB à época sugere que o assassinato de João constituiu-se em crime político, já que Barros era filiado ao partido e às lutas sociais, participando de “movimentos patrióticos estudantis e greves dos trabalhadores por aumento de salários […]”, além de comícios políticos.

Segundo o relato, a família pediu a apuração dos fatos e recebeu como resposta do governador informações de que o “caso era complicado […] e os dispositivos policiais não tinham cobertura para uma correta apuração”. Os culpados pelo crime não foram punidos, apesar do delito ter sido classificado como “bárbaro” pelos governantes. O depoimento de Dimas da Annunciação Perrin, militante do PTB, também sugere a possibilidade de um crime político.

Dimas esclarece que João Barros era presidente do diretório daquele partido no bairro Aarão Reis, onde vivia. Segundo Dimas, a casa de João teria sido invadida por policiais à paisana, pertencentes à Polícia de Minas Gerais. Para a testemunha, o governo procurou ocultar o crime, “no que foi auxiliado pela censura que pesava sobre a imprensa”.

João de Carvalho Barros died on April 2, 1964 at his home in the city of Belo Horizonte. At 8:45 pm, around 30 armed men entered his house, dressed in suits and ties, and burst in shooting.

João was the first to be hit, dying afterwards. Her daughter Catarina Maria Barros, 17 years old, was also hit, being seriously injured in the dorsal thoracic region, an event that would have left irreversible consequences for the young woman. Finally, João's wife, Benedita Carvalho, was shot in the arm. The entire family would have been threatened by the individuals who invaded the house, who also broke furniture and seized João's personal objects.

The group of armed men left the family residence in jeeps and “white plate” cars, as pointed out in the statement by neighbor Laura dos Santos Soares and, the next moment, the Civil Police arrived at the scene, arranging for the removal of João Carvalho’s body to the Instituto Médico-Legal (IML), where the autopsy was carried out. His daughter and wife were taken to the João XXIII Emergency Room, where Catarina underwent surgery.

As a result of cardiac arrest during surgery, Catarina suffered an injury that worsened over time. According to João's death record, signed by Dr. Christobaldo Mata de Almeida, the death occurred as a result of “perforo-blunt wounds caused by a firearm projectile”. In the days following the death, print media published different versions of what happened.

The Correio da Manhã edition of April 5, 1964 states that “unidentified elements murdered, with five shots, Mr. João de Carvalho Barros, a veterinarian, participant in movements considered leftist, in his own home […]. Before fleeing, in three jeeps, the killers vandalized the residence and kidnapped a businessman, a witness. […] The police believe that this was a political crime, in view of the victim's political position.” In another edition of Correio da Manhã, dated April 10, 1964, it is stated that the evangelical associations of Belo Horizonte had sent a telegram to governor Magalhães Pinto, requesting that action be taken against those responsible for the murder of the Protestant pastor.

According to the report, the telegram appealed to the governor to “eradicate the pockets of subversion responsible for such acts.” In the edition of Diário da Tarde on April 4, 1964, the murder is attributed to businessman José Nogueira Soares, “a registered communist, leader of the proletarian nucleus of the region” who had planned the siege together with a group of fanatics. However, the suspect was never arrested or prosecuted.

In turn, the edition of Estado de Minas on April 4, 1964 points out that José Nogueira was the owner of the bar in which the armed group drank before invading João de Carvalho's house. According to the newspaper: “from what we were able to determine, the main suspects responsible for the crime are several individuals who were drinking in a bar close to Mr. João de Carvalho's house, owned by José Nogueira, who allegedly invaded the pastor's house, breaking down the doors, shattering the windows and firing several shots.”

In the testimony of João's neighbor, Laura Soares, who was 13 years old when she watched from her home the invasion of the Carvalho family residence by several men who got out of official vehicles, the armed group appeared to be made up of State agents. The incursion was followed by gunshots – reminiscent of a war – and screams from the family. The testimony of Catarina Maria Barros, João's daughter, points out that on the night of April 2, 1964, she and her brothers were woken up by machine gun shots and that when she went to the living room, she found her father dead.

Catarina remained motionless before the screams of her mother, who had been grazed in the arm, her younger brothers and her own wound, the result of a shot fired into the abdominal region of her body. The PTB director's report at the time suggests that João's murder constituted a political crime, since Barros was affiliated with the party and social struggles, participating in “student patriotic movements and workers' strikes for salary increases […]”, in addition to political rallies.

According to the report, the family asked for the facts to be investigated and received information from the governor in response that the “case was complicated […] and the police devices did not have coverage for a correct investigation”. Those responsible for the crime were not punished, despite the crime being classified as “barbaric” by those in power. The testimony of Dimas da Annunciação Perrin, a PTB activist, also suggests the possibility of a political crime.

Dimas clarifies that João Barros was president of that party's directory in the Aarão Reis neighborhood, where he lived. According to Dimas, João's house had been invaded by plainclothes police officers, belonging to the Minas Gerais Police. For the witness, the government sought to hide the crime, “in which it was helped by the censorship that weighed on the press”.

João de Carvalho Barros falleció el 2 de abril de 1964 en su casa de la ciudad de Belo Horizonte. A las 20.45 horas, unos 30 hombres armados entraron en su casa, vestidos con traje y corbata, y dispararon.

João fue el primero en ser alcanzado, muriendo después. Su hija Catarina María Barros, de 17 años, también resultó impactada, resultando gravemente herida en la región dorsal torácica, suceso que habría dejado consecuencias irreversibles para la joven. Finalmente, la esposa de João, Benedita Carvalho, recibió un disparo en el brazo. Toda la familia habría sido amenazada por los sujetos que invadieron la casa, quienes además rompieron muebles y se apoderaron de objetos personales de João.

El grupo de hombres armados salió de la residencia familiar en jeeps y autos “placa blanca”, como lo señala la declaración de la vecina Laura dos Santos Soares y, al momento siguiente, llegó al lugar la Policía Civil, disponiendo el traslado del cuerpo de João Carvalho al Instituto Médico-Legal (IML), donde se realizó la autopsia. Su hija y su esposa fueron trasladadas a la Sala de Emergencias João XXIII, donde Catarina fue operada.

Como consecuencia de un paro cardíaco durante la cirugía, Catarina sufrió una lesión que empeoró con el tiempo. Según el acta de defunción de João, firmada por el doctor Christobaldo Mata de Almeida, la muerte se produjo como consecuencia de “heridas contundentes provocadas por un proyectil de arma de fuego”. En los días posteriores al fallecimiento, medios impresos publicaron diferentes versiones de lo sucedido.

La edición del Correio da Manhã del 5 de abril de 1964 afirma que "elementos no identificados asesinaron, con cinco disparos, al señor João de Carvalho Barros, veterinario, participante de movimientos considerados de izquierda, en su propia casa [...]. Antes de huir, en tres jeeps, los asesinos destrozaron la residencia y secuestraron a un empresario, testigo. [...] La policía cree que se trató de un delito político, dada la posición política de la víctima". En otra edición del Correio da Manhã, del 10 de abril de 1964, se afirma que las asociaciones evangélicas de Belo Horizonte habían enviado un telegrama al gobernador Magalhães Pinto, solicitando que se tomaran medidas contra los responsables del asesinato del pastor protestante.

Según el informe, el telegrama pedía al gobernador "erradicar los focos de subversión responsables de tales actos". En la edición del Diário da Tarde del 4 de abril de 1964, el asesinato se atribuye al empresario José Nogueira Soares, “un comunista registrado, líder del núcleo proletario de la región” que había planeado el asedio junto con un grupo de fanáticos. Sin embargo, el sospechoso nunca fue arrestado ni procesado.

A su vez, la edición del Estado de Minas del 4 de abril de 1964 señala que José Nogueira era el dueño del bar en el que el grupo armado bebía antes de invadir la casa de João de Carvalho. Según el diario: “por lo que pudimos determinar, los principales sospechosos del crimen son varios individuos que se encontraban bebiendo en un bar cercano a la casa del señor João de Carvalho, propiedad de José Nogueira, quienes presuntamente invadieron la casa del pastor, derribando las puertas, rompiendo las ventanas y disparando varios tiros”.

En el testimonio de la vecina de João, Laura Soares, que tenía 13 años cuando observó desde su casa la invasión de la residencia de la familia Carvalho por parte de varios hombres que descendían de vehículos oficiales, el grupo armado parecía estar integrado por agentes del Estado. La incursión fue seguida de disparos –que recuerdan a una guerra– y gritos de la familia. El testimonio de Catarina Maria Barros, hija de João, señala que la noche del 2 de abril de 1964, ella y sus hermanos fueron despertados por disparos de ametralladora y que al ir a la sala encontró a su padre muerto.

Catarina permaneció inmóvil ante los gritos de su madre, quien había sido rozada en el brazo, sus hermanos menores y su propia herida, producto de un disparo en la región abdominal de su cuerpo. El informe del entonces director del PTB sugiere que el asesinato de João constituyó un crimen político, ya que Barros estaba afiliado al partido y a las luchas sociales, participando en “movimientos patrióticos estudiantiles y huelgas de trabajadores por aumentos salariales […]”, además de mítines políticos.

Según el informe, la familia solicitó que se investigaran los hechos y recibió información del gobernador como respuesta de que el “caso era complicado […] y los dispositivos policiales no tenían cobertura para una correcta investigación”. Los responsables del crimen no fueron castigados, a pesar de que el crimen fue calificado de “bárbaro” por quienes estaban en el poder. El testimonio de Dimas da Annunciação Perrin, activista del PTB, también sugiere la posibilidad de un delito político.

Dimas aclara que João Barros era presidente del directorio de ese partido en el barrio de Aarão Reis, donde vivía. Según Dimas, la casa de João había sido invadida por policías vestidos de civil, pertenecientes a la Policía de Minas Gerais. Para el testigo, el gobierno buscó ocultar el crimen, “a lo que ayudó la censura que pesaba sobre la prensa”.

Diante das investigações realizadas, conclui-se que João de Carvalho Barros morreu em 2 de abril de 1964, em ação perpetrada por agentes do Estado brasileiro em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar implantada no país a partir de abril de 1964.

Recomenda-se a retificação da certidão de óbito de João de Carvalho Barros, assim como a continuidade das investigações sobre as circunstâncias do caso para a identificação e responsabilização dos demais agentes envolvidos.

In view of the investigations carried out, it is concluded that João de Carvalho Barros died on April 2, 1964, in an action carried out by agents of the Brazilian State in the context of systematic human rights violations promoted by the military dictatorship implemented in the country from April 1964.

It is recommended that João de Carvalho Barros' death certificate be corrected, as well as the continuation of investigations into the circumstances of the case to identify and hold the other agents involved accountable.

A la vista de las investigaciones realizadas, se concluye que João de Carvalho Barros falleció el 2 de abril de 1964, en una acción realizada por agentes del Estado brasileño en el contexto de violaciones sistemáticas de los derechos humanos promovidas por la dictadura militar implementada en el país a partir de abril de 1964.

Se recomienda corregir el certificado de defunción de João de Carvalho Barros, así como continuar las investigaciones sobre las circunstancias del caso para identificar y responsabilizar a los demás agentes involucrados.

*Texto retirado de memoriasdaditadura.org.br

ORDEM E PROGRESSO