Foto de José Guimarães

José
Guimarães

4/6/1948 - 1968
São Paulo, SP
EstudanteStudentAlumno

José Guimarães foi morto em 3 de outubro de 1968, em consequência de disparo de arma de fogo em cerco policial realizado pelos órgãos da repressão, durante uma manifestação de estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), episódio que ficou conhecido como “Batalha da Maria Antônia”. Segundo consta na peça inicial dirigida à CEMDP no processo nº 327/96 (assinada pelos advogados Ricardo Antônio Dias Batista, Leon Deniz Bueno da Cruz e Luciene Barbosa Carrijo), os estudantes que presenciaram o fato apontaram o policial Osni Ricardo, membro do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS), como o responsável pelo disparo que atingiu José Guimarães. O episódio conhecido como “Batalha da Maria Antônia” ocorreu pela manhã, no dia 3 de outubro de 1968. O conflito, que parecia ser estudantil, foi deflagrado por agentes da repressão, que atuaram no cerco da região, deixando muitas pessoas feridas, além da morte de José. Na matéria da revista Veja, intitulada “Destruição e Morte – por quê?”, de 9 de outubro de 1968, consta descrição detalhada do conflito: […] paus e pedras, bombas Molotov, rojões, vidros cheios de ácido sulfúrico que ao estourar queimavam a pele e a carne, tiros de revólver e muitos palavrões voaram durante quatro horas pelos poucos metros que separam as calçadas da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Exatamente às 10 e meia da manhã do dia 2, quarta-feira, começou a briga entre as duas escolas. Porque alguns alunos do Mackenzie atiraram ovos em estudantes que cobravam pedágio na Rua Maria Antônia a fim de recolher dinheiro para o Congresso da UNE e outros movimentos antigovernistas da ação estudantil, a rua em que vivem as duas escolas rapidamente se esvaziou. Formaram-se grupos dos dois lados, dentro do Mackenzie, onde estudam alguns membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), Frente Anticomunista (FAC) e Movimento Anticomunista (MAC); dentro da Faculdade de Filosofia da USP, onde fica a sede da União Estadual dos Estudantes. As duas frentes agrediram-se entre discursos inflamados e pausas esparsas. Ao meio-dia a intensidade da batalha aumentou, porque chegaram os alunos dos cursos da tarde. O Mackenzie mantinha uma vantagem tática – os seus prédios ficam em terreno mais elevado e são cercados por um muro alto. A Faculdade da USP está junto à calçada, com sua entrada principal ladeada por colunas de estilo grego e duas portas laterais. Dentre os principais militares que incitaram o ocorrido consta o nome do delegado Raul Nogueira de Lima, também conhecido como “Raul Careca”, e de Otávio Gonçalves Moreira Jr., conhecido como Otavinho, ambos membros do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (DOPS/SP). Em entrevista para o livro Autópsia do Medo, de Percival de Souza, Raul assume que foi um dos fundadores do Comando de Caça aos Comunistas. Segundo Raul: […] o início dos conflitos na Maria Antônia foram marcados pelo fato de o pessoal da Filosofia bloquear a rua para cobrar pedágio. Um estudante de Direito do Mackenzie, Ricardo Osni Silva Pinto, foi reclamar. Um rapaz, estudante de Química, havia sido agredido e o diretor do curso, professor Odilon, ficou revoltado. Reuniu uma turma e foi para cima do pedágio. Aí, um grupo da Filosofia foi para dentro do Mackenzie. O pessoal da Química reagiu. O estudante Bóris Casoy fez um manifesto de convocação dos mackenzistas. De cinco em cinco minutos, o Bóris convocava. Os mackenzistas foram para lá e começaram a preparar sua defesa. Os coquetéis molotov (gasolina dentro de garrafas, com mecha acesa) foram confeccionados pelo pessoal da Química. E mais gás em tubos de ensaio, com bombas de artifício, provocando vômitos em quem aspirasse. Percebemos que havia gente armada na caixa d’água do prédio da Filosofia. Preparamos estilingues gigantes com câmaras de ar de pneus, para arremessar a distância os molotov e gás. Raul Careca afirma que contou com a colaboração do governador Abreu Sodré, que deu ordens para a Guarda Civil cercar o local. Ademais, aponta que foi para o local junto com o delegado Alcides Cintra Bueno Filho e a Guarda Civil. No requerimento à CEMDP, consta declaração assinada por José Dirceu de Oliveira e Silva, à época presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE/SP), na qual afirma que José Guimarães participou ativamente da manifestação de 3 de outubro e que o estudante foi morto por agentes de segurança. O exame do laudo necroscópico, assinado pelos legistas Armando Canger Rodrigues e Irany Novah Moraes, atesta como causa da morte “lesão crânioencefálica traumática”, decorrente de projétil de arma de fogo, bem como que a vítima já entrou morta no pronto-socorro do Hospital das Clínicas, às 15h15, do dia 3 de outubro de 1968. A reportagem “Batalha da Maria Antônia”, da revista Veja, menciona que a bala que o atingiu era de calibre superior a 38 ou de fuzil e que havia seis ou sete pedaços de chumbo no cérebro. Ainda conforme o processo apresentado à CEMDP, a família de José Guimarães teve dificuldades para ter acesso ao corpo, uma vez que o mesmo ficou sob o controle do DOPS, e só foi liberado do IML após autorização do órgão. José foi velado em casa e a rua foi interditada pelo Exército, que apenas permitiu a entrada de pessoas devidamente identificadas. O enterro ocorreu, sob escolta dos órgãos da repressão, no cemitério do Araçá, em São Paulo.

José Guimarães was killed on October 3, 1968, as a result of a gunshot during a police siege carried out by the repression agencies, during a demonstration by students from Mackenzie University and the Faculty of Philosophy, Sciences and Letters of the University of São Paulo (USP), an episode that became known as the “Battle of Maria Antônia”. According to the initial statement addressed to CEMDP in case No. 327/96 (signed by lawyers Ricardo Antônio Dias Batista, Leon Deniz Bueno da Cruz and Luciene Barbosa Carrijo), the students who witnessed the incident pointed to police officer Osni Ricardo, a member of the Communist Hunting Command (CCC) and the State Department of Political and Social Order (DEOPS), as the person responsible for the shot that hit José Guimarães. The episode known as the “Battle of Maria Antônia” occurred in the morning, on October 3, 1968. The conflict, which appeared to be a student conflict, was triggered by agents of repression, who acted in the siege of the region, leaving many people injured, in addition to the death of José. In the article in Veja magazine, entitled “Destruction and Death – why?”, dated October 9, 1968, there is a detailed description of the conflict: […] sticks and stones, Molotov bombs, firecrackers, glass filled with sulfuric acid that when burst burned the skin and flesh, gunshots and many swear words flew for four hours along the few meters that separate the sidewalks of Mackenzie University and the Faculty of Philosophy, Sciences and Letters of the University of São Paulo. Exactly at 10:30 am on the 2nd, Wednesday, a fight broke out between the two schools. Because some Mackenzie students threw eggs at students collecting tolls on Rua Maria Antônia in order to collect money for the UNE Congress and other anti-government student action movements, the street where the two schools live quickly emptied. Groups were formed on both sides, within Mackenzie, where some members of the Communist Hunting Command (CCC), Anticommunist Front (FAC) and Anticommunist Movement (MAC) study; inside the Faculty of Philosophy at USP, where the headquarters of the State Student Union are located. The two fronts attacked each other between fiery speeches and scattered pauses. At noon the intensity of the battle increased, because students from afternoon courses arrived. Mackenzie maintained a tactical advantage – its buildings are on higher ground and are surrounded by a high wall. The USP Faculty is next to the sidewalk, with its main entrance flanked by Greek-style columns and two side doors. Among the main military personnel who incited the incident were delegate Raul Nogueira de Lima, also known as “Raul Careca”, and Otávio Gonçalves Moreira Jr., known as Otavinho, both members of the Department of Political and Social Order of São Paulo (DOPS/SP). In an interview for the book Autopsia do Medo, by Percival de Souza, Raul admits that he was one of the founders of the Communist Hunt Command. According to Raul: […] the beginning of the conflicts in Maria Antônia were marked by the fact that Philosophy people blocked the street to collect tolls. A law student from Mackenzie, Ricardo Osni Silva Pinto, went to complain. A young man, a Chemistry student, had been attacked and the course director, Professor Odilon, was outraged. He gathered a group and went to the toll booth. Then, a group from Philosophy went into Mackenzie. The Chemistry people reacted. Student Bóris Casoy made a manifesto calling on Mackenzistas. Every five minutes, Bóris called. The Mackenzistas went there and began to prepare their defense. The Molotov cocktails (gasoline in bottles, with a lit fuse) were made by the Chemistry staff. And more gas in test tubes, with fireworks, causing vomiting in anyone who inhaled. We noticed that there were armed people in the water tank of the Philosophy building. We prepared giant slingshots with tire air chambers to launch molotovs and gas from a distance. Raul Careca states that he had the collaboration of Governor Abreu Sodré, who gave orders to the Civil Guard to surround the place. Furthermore, he points out that he went to the location together with delegate Alcides Cintra Bueno Filho and the Civil Guard. The application to CEMDP contains a statement signed by José Dirceu de Oliveira e Silva, at the time president of the State Union of Students of São Paulo (UEE/SP), in which he states that José Guimarães actively participated in the demonstration on October 3 and that the student was killed by security agents. The examination of the necroscopic report, signed by coroners Armando Canger Rodrigues and Irany Novah Moraes, attests as the cause of death “traumatic brain injury”, resulting from a firearm projectile, as well as that the victim was already dead in the emergency room of the Hospital das Clínicas, at 3:15 pm, on October 3, 1968. The report “Batalha da Maria Antônia”, from Veja magazine, mentions that the bullet that hit him was of a caliber larger than .38 or from a rifle and that there were six or seven pieces of lead in his brain. Still according to the process presented to CEMDP, José Guimarães' family had difficulties accessing the body, since it was under the control of the DOPS, and was only released from the IML after authorization from the body. José was laid to rest at home and the street was closed off by the Army, which only allowed duly identified people to enter. The burial took place, under the escort of repression bodies, at the Araçá cemetery, in São Paulo.

José Guimarães fue asesinado el 3 de octubre de 1968, como resultado de un disparo durante un cerco policial realizado por los organismos de represión, durante una manifestación de estudiantes de la Universidad Mackenzie y de la Facultad de Filosofía, Ciencias y Letras de la Universidad de São Paulo (USP), episodio que se conoció como la “Batalla de Maria Antônia”. Según la declaración inicial dirigida al CEMDP en la causa nº 327/96 (firmada por los abogados Ricardo Antônio Dias Batista, Leon Deniz Bueno da Cruz y Luciene Barbosa Carrijo), los estudiantes que presenciaron el incidente señalaron al policía Osni Ricardo, miembro del Comando Comunista de Caza (CCC) y del Departamento de Estado de Orden Político y Social (DEOPS), como responsable del disparo que alcanzó a José Guimarães. El episodio conocido como “Batalla de María Antônia” ocurrió en la mañana del 3 de octubre de 1968. El conflicto, que parecía ser un conflicto estudiantil, fue desencadenado por agentes de la represión, que actuaron en el asedio de la región, dejando muchas personas heridas, además de la muerte de José. En el artículo de la revista Veja, titulado “Destrucción y Muerte – ¿por qué?”, fechado el 9 de octubre de 1968, hay una descripción detallada del conflicto: […] palos y piedras, bombas molotov, petardos, vasos llenos de ácido sulfúrico que al estallar quemaban la piel y la carne, disparos y muchas malas palabras volaron durante cuatro horas a lo largo de los pocos metros que separan las aceras de la Universidad Mackenzie y la Facultad de Filosofía, Ciencias y Letras de la Universidad de São Paulo. Exactamente a las 10:30 horas del día 2, miércoles, estalló una pelea entre las dos escuelas. Debido a que algunos estudiantes de Mackenzie arrojaron huevos a los estudiantes que cobraban el peaje en la Rua Maria Antônia para recaudar dinero para el Congreso de la UNE y otros movimientos de acción estudiantil antigubernamental, la calle donde viven las dos escuelas se vació rápidamente. Se formaron grupos en ambos bandos, dentro de Mackenzie, donde estudian algunos miembros del Comando Comunista de Caza (CCC), Frente Anticomunista (FAC) y Movimiento Anticomunista (MAC); dentro de la Facultad de Filosofía de la USP, donde se encuentra la sede del Sindicato de Estudiantes del Estado. Los dos frentes se atacaron entre discursos encendidos y pausas dispersas. Al mediodía la intensidad de la batalla aumentó, porque llegaron alumnos de los cursos de la tarde. Mackenzie mantuvo una ventaja táctica: sus edificios están en terrenos más altos y están rodeados por un muro alto. La Facultad USP está al lado de la acera, con su entrada principal flanqueada por columnas de estilo griego y dos puertas laterales. Entre los principales militares que incitaron al incidente se encontraban el delegado Raúl Nogueira de Lima, también conocido como “Raúl Careca”, y Otávio Gonçalves Moreira Jr., conocido como Otavinho, ambos miembros del Departamento de Orden Político y Social de São Paulo (DOPS/SP). En una entrevista para el libro Autopsia do Medo, de Percival de Souza, Raúl admite que fue uno de los fundadores del Comando de Caza Comunista. Según Raúl: […] el inicio de los conflictos en Maria Antônia estuvo marcado por el hecho de que gente de Filosofía bloqueaba la calle para cobrar el peaje. Un estudiante de derecho de Mackenzie, Ricardo Osni Silva Pinto, fue a denunciar. Un joven estudiante de química había sido atacado y el director del curso, el profesor Odilon, estaba indignado. Reunió a un grupo y se dirigió al peaje. Luego, un grupo de Filosofía entró en Mackenzie. La gente de Química reaccionó. El estudiante Bóris Casoy hizo un manifiesto llamando a los mackenzistas. Cada cinco minutos llamaba Bóris. Los mackenzistas fueron allí y comenzaron a preparar su defensa. Las bombas molotov (gasolina embotellada, con mecha encendida) fueron elaboradas por el personal de Química. Y más gas en tubos de ensayo, con fuegos artificiales, provocando vómitos en quien lo inhalaba. Notamos que había gente armada en el tanque de agua del edificio de Filosofía. Preparamos tirachinas gigantes con cámaras de aire en los neumáticos para lanzar molotovs y gases a distancia. Raúl Careca afirma que contó con la colaboración del gobernador Abreu Sodré, quien dio órdenes a la Guardia Civil para rodear el lugar. Además, señala que acudió al lugar junto con el delegado Alcides Cintra Bueno Filho y la Guardia Civil. La solicitud al CEMDP contiene una declaración firmada por José Dirceu de Oliveira e Silva, en ese momento presidente de la Unión Estadual de Estudiantes de São Paulo (UEE/SP), en la que afirma que José Guimarães participó activamente en la manifestación del 3 de octubre y que el estudiante fue asesinado por agentes de seguridad. El examen del informe necroscópico, firmado por los forenses Armando Canger Rodrigues e Irany Novah Moraes, acredita como causa de la muerte “lesión cerebral traumática”, resultante de un proyectil de arma de fuego, además de que la víctima ya estaba muerta en la sala de emergencia del Hospital das Clínicas, a las 15:15 horas del 3 de octubre de 1968. El informe “Batalha da Maria Antônia”, de la revista Veja, menciona que la bala que impactó era de un calibre mayor al .38 o de rifle y que en su cerebro había seis o siete trozos de plomo. Aún según el proceso presentado al CEMDP, la familia de José Guimarães tuvo dificultades para acceder al cuerpo, ya que estaba bajo control del DOPS, y sólo fue liberado del IML después de la autorización del organismo. José fue enterrado en su casa y la calle fue cerrada por el Ejército, que sólo permitió el ingreso a personas debidamente identificadas. El entierro tuvo lugar, escoltado por cuerpos de represión, en el cementerio de Araçá, en São Paulo.

Diante das investigações realizadas, conclui-se que José Guimarães morreu em decorrência de ação perpetrada por agentes do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos, promovidas pela ditadura militar, implantada no país a partir de abril de 1964. Recomenda-se a continuidade das investigações sobre as circunstâncias do caso, para a e identificação e responsabilização dos demais agentes envolvidos.

In view of the investigations carried out, it is concluded that José Guimarães died as a result of an action perpetrated by agents of the Brazilian State, in a context of systematic human rights violations, promoted by the military dictatorship, implemented in the country from April 1964. It is recommended that investigations continue into the circumstances of the case, in order to identify and hold the other agents involved accountable.

A la vista de las investigaciones realizadas, se concluye que José Guimarães murió como consecuencia de una acción perpetrada por agentes del Estado brasileño, en un contexto de violaciones sistemáticas de los derechos humanos, promovidas por la dictadura militar, implementada en el país a partir de abril de 1964. Se recomienda continuar con las investigaciones sobre las circunstancias del caso, a fin de identificar y responsabilizar a los demás agentes involucrados.

*Texto retirado de memoriasdaditadura.org.br

ORDEM E PROGRESSO