José
Nobre
Parente
CIRCUNSTÂNCIAS DA MORTE
No dia 17 de maio de 1966, José Nobre Parente foi preso em seu local de trabalho em decorrência de sua participação no movimento de sua categoria profissional, sendo levado para as dependências da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Ceará. Nesta mesma ocasião, outros ferroviários foram detidos sob a suspeita de fomentar atos de sabotagem pelo Serviço de Segurança da RFFSA. É importante ressaltar que os ferroviários no Brasil constituíam categoria bastante mobilizada e ampla, em decorrência da importância estratégica da ferrovia no sistema de transporte nacional, especialmente antes do impulso à indústria automobilística em 1956. Na década de 1960, essa categoria ainda era numerosa, inclusive, no Ceará. De acordo com a edição do jornal Última Hora de 1º de junho de 1966, as prisões de operários da RVC foram realizadas de madrugada e os policiais agiram sem qualquer mandado de busca judicial. Parente foi preso pelo chefe da repartição, que acionou o Serviço de Segurança da empresa, à época comandada pelo capitão Manuel Nepomuceno de Assis, assessor direto do superintendente José Walter Cavalcante. De acordo com Nilton Almeida, a Polícia Ferroviária, ou Polícia dos Caminhos de Ferro, tinha forças de polícia especializada entre os anos de 1964 e 1985, podendo fazer uso da Lei de Segurança Nacional contra greves. No dia seguinte à sua prisão, a esposa de José Nobre, Francisca, foi visitá-lo e recebeu seus objetos pessoais: um anel, a aliança, o relógio e o cinto. No dia 19 de maio, com nova ida de Francisca ao presídio, o delegado solicitou ao carcereiro que fosse verificar se “o preso estava em condições de receber visitas” e voltou gritando que José Nobre estava morto. Parente, então com 38 anos, teria se enforcado com um cinto. Uma notícia no Jornal do Brasil do dia 21 de maio de 1966 informara que José Nobre teria cometido suicídio por ter delatado os seus companheiros, que haviam participado de atos de sabotagem, “causando grandes prejuízos ao patrimônio da Rede”. No entanto, a edição da Gazeta de Notícias datada de 22 de maio de 1966 questiona o motivo pelo qual Parente teria ficado com um cinto na cela, já que os presos “são obrigados a deixarem na permanência todos os seus objetos” e que, assim como os demais prisioneiros, José também se encontrava em regime de incomunicabilidade. A notícia termina com a pergunta: “E quem dará a resposta verdadeira do suicídio do funcionário da RVC?”. Apesar de não ser possível comprovar a ocorrência de tortura, pelo fato de José não dispor da informação requerida pela polícia, o jornal Última Hora de 26 de maio de 1966 afirma que um parente teria autorizado a sua exumação e que sua esposa afirmara que o marido tinha “uma grande pancada na cabeça”. Por esse motivo, ao entregar o corpo de José Nobre a seu irmão, o delegado advertiu-lhe que não falasse sobre a morte com ninguém e fizessem um enterro sem alarde para a imprensa. No entanto, os familiares decidiram levar o corpo para o Instituto Médico-Legal (IML). O velório foi realizado em clima de tensão, na casa da irmã do operário assassinado. O então superintendente da RFFSA, José Walter Cavalcanti, impediu que os ferroviários saíssem do trabalho para comparecer ao enterro de José Nobre. Muitos não respeitaram a ordem, pulando os muros da empresa para ir ao velório e, depois, ao cemitério. Ademais, policiais à paisana foram enviados para o local com o objetivo de impedir qualquer manifestação. Durante o velório, o irmão da vítima, Valfredo, recebeu a certidão de óbito do IML no qual constava uma causa de morte distinta da divulgada anteriormente pela Secretaria de Segurança. O documento do IML indicava “fratura de crânio” como causa mortis, e não asfixia mecânica. Valfredo levou o fato ao conhecimento de todos os presentes no velório, e acabou sendo preso e tendo o documento do IML confiscado. Uma nova certidão foi emitida pelo Cartório Cysne, em 1970, e nela consta como causa da morte “asfixia mecânica por constrição do pescoço, enforcamento” e a data da morte como dia 20 de maio. Um inquérito policial foi instaurado para investigar a morte de José Nobre por ordem do Chefe de Polícia do Ceará, coronel Clóvis Alexandrino Nogueira. O ocorrido teve grande repercussão na mídia da época, o que causou a agressão ao jornalista Edmundo Maia, do jornal Última Hora, cujas reportagens deram repercussão nacional à morte do ferroviário e colocaram o operário como mais um caso de “preso político”. O corpo de José Parente foi enterrado no cemitério São João Batista, em Fortaleza (CE).
On May 17, 1966, José Nobre Parente was arrested at his place of work as a result of his participation in the movement of his professional category, and was taken to the premises of the Public Security Secretariat of the State of Ceará. On the same occasion, other railway workers were arrested on suspicion of promoting acts of sabotage by the RFFSA Security Service. It is important to highlight that railway workers in Brazil constituted a very mobilized and broad category, due to the strategic importance of the railway in the national transport system, especially before the boost to the automobile industry in 1956. In the 1960s, this category was still numerous, including in Ceará. According to the edition of the newspaper Última Hora dated June 1, 1966, the arrests of RVC workers were carried out at dawn and the police acted without any judicial search warrant. Parente was arrested by the head of the department, who called the company's Security Service, at the time commanded by captain Manuel Nepomuceno de Assis, direct advisor to superintendent José Walter Cavalcante. According to Nilton Almeida, the Railway Police, or Railway Police, had specialized police forces between 1964 and 1985, being able to make use of the National Security Law against strikes. The day after his arrest, José Nobre's wife, Francisca, went to visit him and received his personal belongings: a ring, wedding ring, watch and belt. On May 19, when Francisca went to the prison again, the police chief asked the jailer to check if “the prisoner was in a condition to receive visitors” and returned shouting that José Nobre was dead. Relative, then 38 years old, allegedly hanged himself with a belt. A report in Jornal do Brasil on May 21, 1966, reported that José Nobre had committed suicide for having informed on his companions, who had participated in acts of sabotage, “causing great damage to the Network's assets”. However, the edition of Gazeta de Notícias dated May 22, 1966 questions why Parente would have been left with a belt in his cell, since prisoners “are obliged to leave all their objects behind” and that, like the other prisoners, José was also incommunicado. The news ends with the question: “And who will give the true answer to the suicide of the RVC employee?” Although it is not possible to prove the occurrence of torture, due to the fact that José did not have the information required by the police, the newspaper Última Hora of May 26, 1966 states that a relative had authorized his exhumation and that his wife had stated that her husband had “a big blow to the head”. For this reason, when handing over José Nobre's body to his brother, the police chief warned him not to talk about his death with anyone and to hold a funeral without fanfare to the press. However, the family decided to take the body to the Medical-Legal Institute (IML). The wake was held in a tense atmosphere, at the house of the murdered worker's sister. The then superintendent of RFFSA, José Walter Cavalcanti, prevented railway workers from leaving work to attend José Nobre's funeral. Many did not respect the order, jumping over the company walls to go to the wake and then to the cemetery. Furthermore, plainclothes police officers were sent to the location with the aim of preventing any demonstration. During the wake, the victim's brother, Valfredo, received the death certificate from the IML which stated a different cause of death from that previously disclosed by the Security Secretariat. The IML document indicated “skull fracture” as the cause of death, and not mechanical asphyxiation. Valfredo made the fact known to everyone present at the wake, and ended up being arrested and having his IML document confiscated. A new certificate was issued by the Cysne Notary's Office in 1970, which states the cause of death as “mechanical asphyxiation due to constriction of the neck, hanging” and the date of death as May 20th. A police investigation was opened to investigate the death of José Nobre by order of the Chief of Police of Ceará, Colonel Clóvis Alexandrino Nogueira. The incident had great repercussion in the media at the time, which led to the attack on journalist Edmundo Maia, from the newspaper Última Hora, whose reports gave national repercussion to the railway worker's death and classified the worker as another case of “political prisoner”. José Parente's body was buried in the São João Batista cemetery, in Fortaleza (CE).
El 17 de mayo de 1966, José Nobre Parente fue detenido en su lugar de trabajo como consecuencia de su participación en el movimiento de su categoría profesional, y fue conducido a las instalaciones de la Secretaría de Seguridad Pública del Estado de Ceará. En la misma ocasión, otros trabajadores ferroviarios fueron detenidos bajo sospecha de promover actos de sabotaje por parte del Servicio de Seguridad de la RFFSA. Es importante resaltar que los trabajadores ferroviarios en Brasil constituían una categoría muy movilizada y amplia, debido a la importancia estratégica del ferrocarril en el sistema de transporte nacional, especialmente antes del impulso de la industria automotriz en 1956. En la década de 1960, esta categoría aún era numerosa, incluso en Ceará. Según la edición del diario Última Hora del 1 de junio de 1966, las detenciones de los trabajadores de RVC se realizaron en la madrugada y la policía actuó sin orden judicial de allanamiento. Parente fue detenido por el jefe del departamento, quien llamó al Servicio de Seguridad de la empresa, en ese momento comandado por el capitán Manuel Nepomuceno de Assis, asesor directo del superintendente José Walter Cavalcante. Según Nilton Almeida, la Policía Ferroviaria, o Policía Ferroviaria, contó con cuerpos policiales especializados entre 1964 y 1985, pudiendo hacer uso de la Ley de Seguridad Nacional contra las huelgas. Al día siguiente de su detención, la esposa de José Nobre, Francisca, fue a visitarlo y recibió sus efectos personales: anillo, alianza, reloj y cinturón. El 19 de mayo, cuando Francisca acudió nuevamente al penal, el jefe policial le pidió al carcelero que verificara si “el reo estaba en condiciones de recibir visitas” y regresó gritando que José Nobre estaba muerto. Un familiar, que entonces tenía 38 años, supuestamente se ahorcó con un cinturón. Un reportaje del Jornal do Brasil del 21 de mayo de 1966 informó que José Nobre se había suicidado por haber informado sobre sus compañeros, quienes habían participado en actos de sabotaje, “causando grandes daños al patrimonio de la Red”. Sin embargo, la edición de Gazeta de Notícias del 22 de mayo de 1966 cuestiona por qué Parente habría quedado con un cinturón en su celda, ya que los presos “están obligados a dejar todos sus objetos” y que, como los demás presos, José también estaba incomunicado. La noticia termina con la pregunta: “¿Y quién dará la verdadera respuesta al suicidio del empleado de RVC?” Si bien no es posible comprobar la existencia de tortura, debido a que José no contaba con la información requerida por la policía, el diario Última Hora del 26 de mayo de 1966 señala que un familiar había autorizado su exhumación y que su esposa había manifestado que su marido tenía “un gran golpe en la cabeza”. Por ello, al entregar el cuerpo de José Nobre a su hermano, el jefe policial le advirtió que no hablara de su muerte con nadie y realizara un funeral sin estridencias ante la prensa. Sin embargo, la familia decidió llevar el cuerpo al Instituto Médico Legal (IML). El velorio se celebró en un ambiente tenso, en la casa de la hermana del trabajador asesinado. El entonces superintendente de la RFFSA, José Walter Cavalcanti, impidió a los trabajadores ferroviarios salir del trabajo para asistir al funeral de José Nobre. Muchos no respetaron la orden, saltando los muros de la empresa para ir al velorio y luego al cementerio. Además, agentes de policía vestidos de civil fueron enviados al lugar con el objetivo de impedir cualquier manifestación. Durante el velatorio, el hermano de la víctima, Valfredo, recibió el certificado de defunción del IML en el que se indica una causa de muerte distinta a la previamente revelada por la Secretaría de Seguridad. El documento del IML indicó como causa de muerte una “fractura de cráneo” y no una asfixia mecánica. Valfredo hizo saber el hecho a todos los presentes en el velorio, y terminó siendo detenido y confiscado su documento IML. La Notaria de Cysne emitió un nuevo certificado en 1970, que establece la causa de la muerte como “asfixia mecánica por constricción del cuello, ahorcamiento” y la fecha de la muerte el 20 de mayo. Se abrió una investigación policial para investigar la muerte de José Nobre por orden del jefe de la Policía de Ceará, coronel Clóvis Alexandrino Nogueira. El hecho tuvo gran repercusión mediática de la época, lo que derivó en el ataque al periodista Edmundo Maia, del diario Última Hora, cuyos reportajes dieron repercusión nacional a la muerte del ferroviario y catalogaron al trabajador como un caso más de “preso político”. El cuerpo de José Parente fue enterrado en el cementerio de São João Batista, en Fortaleza (CE).
*Texto retirado de memoriasdaditadura.org.br