Foto de José Roberto Spiegner

José
Roberto
Spiegner

30/12/1948 - 1970
Rio de Janeiro, RJ
EstudanteStudentAlumno

José Roberto Spiegner teria sido morto no dia 17 de fevereiro de 1970, depois de travar tiroteio com agentes do Estado, na rua Joaquim Silva, Rio de Janeiro. Segundo o Dossiê Ditadura, tais agentes pertenciam ao Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do I Exército. Informação contrariada pelo relatório do Instituto Médico-Legal (IML), onde consta que seu corpo deu entrada às 12h30 do mesmo dia, portando a guia no 1 do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). O mesmo relatório, assinado pelos legistas Ivan Nogueira Bastos e Nelson Caparelli, afirma: “(…) a morte ocorreu às 05h30min do dia 17 (…) perseguido como elemento subversivo por agentes do DOPS, reagiu à bala ferindo um policial, e finalmente foi alvejado mortalmente”. Versão confirmada por Vera Silvia Araújo Magalhães, companheira de José Roberto à época, em relato contido no livro O fantasma da revolução brasileira, de 1993: Zé Roberto não resistiu à ideia de ser torturado. O companheiro que estava cercado com ele se rendeu e está vivo até hoje, embora tenha sido preso e torturado. O Zé Roberto preferiu descer a escada, atirando para matar um policial, e gritando “abaixo a ditadura”, antes de ser morto. Foi, ou não um suicídio? Evidentemente que foi. Ele não fez o ato clássico, mas fez com que alguém desse um tiro nele, à queima roupa(…). i Contudo, apesar da confirmação, a versão apresenta algumas incongruências. Segundo o relator do caso na CEMDP, há uma estranha demora de sete horas entre o horário da morte e a entrada no IML. Há também as fotos da perícia que registram o corpo em uma sala com o piso acarpetado onde não havia espaço para que pudesse ter sido atingido de longe, segundo o relator: (…) na região temporal direita uma ferida estrelar de bordas escoriadas e queimadas com aspecto das produzidas por entrada de projétil de arma de fogo disparada com arma encostada a cabeça… ambas as regiões orbitárias estão ligeiramente tumefeitadas cobertas por equimoses arroxeadas (…) membro superior esquerdo revela três equimoses arroxeadas no cotovelo (…) duas escoriações pardos avermelhadas no dorso do punho (…) a forma das lesões localizadas na face direita da cabeça denota claramente execução, e ainda as escoriações localizam-se em regiões do corpo humano que configuram tortura em pau-e-arara. Há ainda escoriações na região do punho, denotando que José Carlos foi algemado. No auto de exame cadavérico produzido pelo IML, é possível ler, além dos hematomas acima mencionados, que os dedos de José Roberto estavam sujos de tinta usada para tomar impressão digital, o que indica que possivelmente foi preso e identificado horas antes da sua execução. Consta ainda no laudo que o corpo apresentava rigidez muscular generalizada, o que significa que José Roberto havia morrido há pelo menos 12 horas, divergindo da versão oficial, segundo a qual teria morrido 7 horas antes de entrar no IML. Há, ainda, um requerimento da 1ª Auditoria da Marinha do Rio de Janeiro, de 3 de abril de 1970, solicitando o laudo ao IML, referindo-se à morte de José Roberto como um “acidente”. Isso demonstra que os órgãos da repressão se comunicavam para criar uma história acerca da execução de um militante. Contudo, nesse caso, histórias diferentes foram repassadas às instituições militares, indicando uma dinâmica de produção de contrainformação para dificultar a resolução dos casos. José Roberto Spiegner foi enterrado pela família no cemitério Comunal Israelita de Vila Rosali, Rio de Janeiro.

José Roberto Spiegner was reportedly killed on February 17, 1970, after engaging in a shootout with State agents, on Joaquim Silva Street, Rio de Janeiro. According to the Ditadura Dossier, these agents belonged to the Information Operations Detachment – ​​Internal Defense Operations Center (DOI-CODI) of the 1st Army. Information contradicted by the report from the Medical-Legal Institute (IML), which states that his body was admitted at 12:30 pm on the same day, carrying guide number 1 from the Department of Political and Social Order (DOPS). The same report, signed by coroners Ivan Nogueira Bastos and Nelson Caparelli, states: “(…) the death occurred at 5:30 am on the 17th (…) pursued as a subversive element by DOPS agents, he reacted to the bullet, injuring a police officer, and was finally fatally shot.” Version confirmed by Vera Silvia Araújo Magalhães, José Roberto's companion at the time, in an account contained in the book The ghost of the Brazilian revolution, from 1993: Zé Roberto could not resist the idea of ​​being tortured. The companion he was surrounded by surrendered and is still alive today, although he was arrested and tortured. Zé Roberto preferred to go down the stairs, shooting to kill a police officer, and shouting “down with the dictatorship”, before being killed. Was it a suicide or not? Evidently it was. He didn't do the classic act, but he made someone shoot him, at close range (…). i However, despite confirmation, the version presents some inconsistencies. According to the case rapporteur at CEMDP, there is a strange delay of seven hours between the time of death and entry into the IML. There are also forensic photos that record the body in a room with a carpeted floor where there was no space for it to have been hit from afar, according to the rapporteur: (…) in the right temporal region, a star wound with excoriated and burned edges with the appearance of those produced by the entry of a firearm projectile fired with a gun held against the head… both orbital regions are slightly swollen covered by purplish bruises (…) left upper limb reveals three purplish bruises on the elbow (…) two reddish-brown abrasions on the back of the wrist (…) the shape of the injuries located on the right side of the head clearly denotes execution, and the abrasions are located in regions of the human body that constitute stick-and-arara torture. There are also abrasions in the wrist area, showing that José Carlos was handcuffed. In the cadaveric examination report produced by the IML, it is possible to read, in addition to the bruises mentioned above, that José Roberto's fingers were dirty with ink used to take fingerprints, which indicates that he was possibly arrested and identified hours before his execution. The report also states that the body presented generalized muscular rigidity, which means that José Roberto had died at least 12 hours ago, diverging from the official version, according to which he had died 7 hours before entering the IML. There is also a request from the 1st Audit of the Rio de Janeiro Navy, dated April 3, 1970, requesting a report from the IML, referring to José Roberto's death as an “accident”. This demonstrates that the repression bodies communicated to create a story about the execution of a militant. However, in this case, different stories were passed on to the military institutions, indicating a dynamic of producing counterinformation to make it difficult to resolve the cases. José Roberto Spiegner was buried by his family in the Comunal Israelita cemetery in Vila Rosali, Rio de Janeiro.

José Roberto Spiegner habría sido asesinado el 17 de febrero de 1970, luego de un tiroteo con agentes del Estado, en la calle Joaquim Silva, Río de Janeiro. Según el Dossier Ditadura, estos agentes pertenecían al Destacamento de Operaciones de Información – Centro de Operaciones de Defensa Interna (DOI-CODI) del 1º Ejército. Información que contradice el informe del Instituto Médico Legal (IML), que señala que su cuerpo fue ingresado a las 12:30 horas del mismo día, portando la guía número 1 del Departamento de Orden Político y Social (DOPS). El mismo informe, firmado por los médicos forenses Iván Nogueira Bastos y Nelson Caparelli, señala: “(…) la muerte ocurrió a las 5:30 horas del día 17 (…) perseguido como elemento subversivo por agentes del DOPS, reaccionó al balazo hiriendo a un policía y finalmente fue asesinado a tiros”. Versión confirmada por Vera Silvia Araújo Magalhães, entonces compañera de José Roberto, en un relato contenido en el libro El fantasma de la revolución brasileña, de 1993: Zé Roberto no pudo resistir la idea de ser torturado. El compañero que lo rodeaba se entregó y hoy sigue vivo, aunque fue detenido y torturado. Zé Roberto prefirió bajar las escaleras, matar a tiros a un policía y gritar “abajo la dictadura”, antes de ser asesinado. ¿Fue un suicidio o no? Evidentemente lo fue. No hizo el acto clásico, pero hizo que alguien le disparara, a quemarropa (…). i Sin embargo, a pesar de la confirmación, la versión presenta algunas inconsistencias. Según el relator del caso del CEMDP, existe un extraño retraso de siete horas entre el momento de la muerte y el ingreso al IML. También existen fotografías forenses que registran el cuerpo en una habitación con piso alfombrado donde no había espacio para haber sido impactado de lejos, según el relator: (…) en la región temporal derecha, una herida en forma de estrella con bordes excoriados y quemados con apariencia de las producidas por el ingreso de un proyectil de arma de fuego disparado con un arma de fuego apuntado contra la cabeza… ambas regiones orbitarias están ligeramente hinchadas cubiertas por hematomas violáceos (…) miembro superior izquierdo revela tres hematomas violáceos en el codo (…) dos abrasiones de color marrón rojizo en el dorso de la muñeca (…) la forma de las heridas ubicadas en el lado derecho de la cabeza denota claramente ejecución, y las abrasiones se ubican en regiones del cuerpo humano que constituyen tortura de palo y arara. También hay abrasiones en la zona de la muñeca, lo que demuestra que José Carlos estaba esposado. En el informe de examen cadavérico elaborado por el IML se puede leer, además de los hematomas antes mencionados, que los dedos de José Roberto estaban sucios con tinta utilizada para tomar huellas dactilares, lo que indica que posiblemente fue detenido e identificado horas antes de su ejecución. El informe también señala que el cuerpo presentaba rigidez muscular generalizada, lo que significa que José Roberto había fallecido hacía al menos 12 horas, divergiendo de la versión oficial, según la cual había fallecido 7 horas antes de ingresar al IML. También existe un pedido de la 1.ª Auditoría de la Armada de Río de Janeiro, de 3 de abril de 1970, solicitando un informe al IML, refiriéndose a la muerte de José Roberto como un “accidente”. Esto demuestra que los órganos de represión se comunicaron para crear una historia sobre la ejecución de un militante. Sin embargo, en este caso, se transmitieron historias diferentes a las instituciones militares, lo que indica una dinámica de producción de contrainformación para dificultar la resolución de los casos. José Roberto Spiegner fue enterrado por su familia en el cementerio Comunal Israelita de Vila Rosali, Río de Janeiro.

Diante das investigações realizadas, conclui-se que José Roberto Spiegner morreu em decorrência de ações perpetradas por agentes do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar implantada no país a partir de abril de 1964. Recomenda-se a retificação da certidão de óbito de José Roberto Spiegner, assim como a continuidade das investigações sobre as circunstâncias do caso para identificação e responsabilização dos agentes envolvidos.

In view of the investigations carried out, it is concluded that José Roberto Spiegner died as a result of actions perpetrated by agents of the Brazilian State, in the context of systematic human rights violations promoted by the military dictatorship implemented in the country from April 1964. It is recommended that José Roberto Spiegner's death certificate be corrected, as well as the continuation of investigations into the circumstances of the case to identify and hold the agents involved accountable.

En vista de las investigaciones realizadas, se concluye que José Roberto Spiegner murió como consecuencia de acciones perpetradas por agentes del Estado brasileño, en el contexto de violaciones sistemáticas de derechos humanos promovidas por la dictadura militar implementada en el país a partir de abril de 1964. Se recomienda corregir el certificado de defunción de José Roberto Spiegner, así como continuar las investigaciones sobre las circunstancias del caso para identificar y responsabilizar a los agentes involucrados.

*Texto retirado de memoriasdaditadura.org.br

ORDEM E PROGRESSO