Napoleão
Felipe
Biscaldi
CIRCUNSTÂNCIAS DA MORTE
Napoleão Felipe Biscaldi morreu alvejado por um tiro na cabeça em frente à sua casa, em 27 de fevereiro de 1973. Na ocasião, morreram também os militantes Alexander José Ibsen Voerões e Lauriberto José Reyes. Alexander morreu na mesma rua em que Napoleão, enquanto Lauriberto foi assassinado em outro quarteirão.
O corpo de Napoleão ficou exposto na rua por cerca de 5 horas até a chegada do IML, enquanto os corpos dos militantes foram recolhidos em seguida ao assassinato e levados no porta-malas de um carro da polícia. A versão oficial noticiada, à época, no Jornal Folha de S.Paulo é a de que Napoleão fora morto pelos “terroristas” durante cerrado tiroteio entre os militantes e a polícia. Em documento do CISA de 1975, divulgado internamente entre os órgãos estatais, a versão sustentada é a mesma.
Passados mais de 40 anos, investigações sobre esse episódio revelaram a existência de inúmeros elementos que permitem apontar que a versão divulgada à época não se sustenta. Apesar de resultar em violenta ação policial, não foi realizada à época nenhuma perícia que permitisse a comprovação do suposto tiroteio relatado. Não foram localizados documentos que apresentassem a relação das armas utilizadas, nem fotos do local do confronto; desta forma, não foi possível estabelecer a dinâmica dos acontecimentos que culminaram na morte desses militantes.
Segundo relatos de moradores da referida rua, na tarde do dia 27 de fevereiro, o quarteirão fora cercado pela polícia, de modo que ninguém pudesse entrar ou sair. De acordo com o depoimento de Adalberto Barreiro, que, na época dos fatos, residia em rua paralela ao local do suposto tiroteio, havia um jovem que tentava correr, mancando e segurando a perna, quando passou um Opala branco com policiais armados de metralhadora, com metade do corpo para fora do carro, atirando. Primeiro, atingiram Napoleão Felipe Biscaldi – um funcionário público aposentado antigo morador da [Serra de] Botucatu, que atravessava a rua; depois balearam o rapaz que mancava.
O rapaz aparentemente foi morto na hora. Os policiais o jogaram no porta-malas do carro. As ruas estavam cercadas de policiais. Adalberto também contou que viu uma moça japonesa presa dentro do Opala e que os policiais comentavam que outro militante também tinha sido morto no outro quarteirão.
Segundo relato dos moradores que presenciaram o episódio, ao contrário da versão oficial, nenhum dos militantes chegou a sacar a arma. Ressaltaram, inclusive, que o corpo de Napoleão ficou cinco horas na rua aguardando perícia, enquanto os corpos dos dois militantes já haviam sido levados.
Maria Amélia Teles, em depoimento prestado perante a Comissão Estadual da Verdade de São Paulo Rubens Paiva, em 20 de março de 2014, relata que conversou com alguns vizinhos de Napoleão, sendo um deles a Dona Maria Celeste Matos, que lhe contou que “o esquadrão da morte comandou uma ação militar em alguns quarteirões da rua”, tendo feito um cerco, posicionando homens armados por toda a extensão da rua. Dona Maria afirmou, ainda, segundo Maria Amélia Teles, que seu filho estava brincando com o filho de Napoleão no campinho de futebol próximo, quando tiros começaram a ser ouvidos, e Napoleão saiu para buscar os meninos: O sr. Napoleão estava em casa pintando um varal de roupas para mim. Ele ouviu tanto tiro, um atrás do outro, e ele então falou à sua esposa, Dona Alda, que ele iria buscar seu filho que estava jogando bola no campinho, foi quando ele saiu para rua e foi executado pelo esquadrão da morte que saiu atirando pela rua afora.
No pedido de requisição de exame cadavérico de Napoleão, encaminhado pelo Departamento Regional de Polícia da Grande São Paulo ao IML, aparece um T escrito à mão, simbologia utilizada pelos órgãos da repressão para identificar “terroristas”, indicando uma tentativa da polícia de justificar o assassinato de Napoleão.
No entanto, tudo indica que ele foi morto por ter presenciado o cerco e a execução dos militantes. Seu filho, Manoel Biscaldi, fez o reconhecimento do corpo no necrotério. Napoleão foi enterrado pela família no cemitério de Araçá em 28 de fevereiro de 1973.
Napoleão Felipe Biscaldi died after being shot in the head in front of his house, on February 27, 1973. At the time, militants Alexander José Ibsen Voerões and Lauriberto José Reyes also died. Alexander died on the same street as Napoleon, while Lauriberto was murdered in another block.
Napoleon's body was exposed on the street for around 5 hours until the arrival of the IML, while the bodies of the militants were collected following the murder and taken in the trunk of a police car. The official version reported at the time in Jornal Folha de S.Paulo was that Napoleon was killed by “terrorists” during a fierce shootout between the militants and the police. In a 1975 CISA document, released internally among state bodies, the supported version is the same.
More than 40 years later, investigations into this episode revealed the existence of numerous elements that allow us to point out that the version published at the time is not sustainable. Despite resulting in violent police action, no investigation was carried out at the time that would allow proof of the alleged reported shooting. No documents were found that presented a list of the weapons used, nor photos of the scene of the confrontation; Therefore, it was not possible to establish the dynamics of the events that culminated in the deaths of these militants.
According to reports from residents of that street, on the afternoon of February 27th, the block was surrounded by police, so that no one could enter or leave. According to the testimony of Adalberto Barreiro, who, at the time of the events, lived on a street parallel to the location of the alleged shooting, there was a young man who was trying to run, limping and holding his leg, when a white Opal passed by with police officers armed with machine guns, with half of their body outside the car, shooting. First, they hit Napoleão Felipe Biscaldi – a retired civil servant and former resident of [Serra de] Botucatu, who was crossing the street; then they shot the boy who was limping.
The boy was apparently killed instantly. The police threw him into the trunk of the car. The streets were surrounded by police. Adalberto also said that he saw a Japanese girl trapped inside Opala and that the police commented that another militant had also been killed on the other block.
According to reports from residents who witnessed the episode, contrary to the official version, none of the militants drew their weapons. They even highlighted that Napoleon's body remained on the street for five hours awaiting forensic examination, while the bodies of the two militants had already been taken.
Maria Amélia Teles, in a statement given before the State Truth Commission of São Paulo Rubens Paiva, on March 20, 2014, reports that she spoke with some of Napoleão's neighbors, one of them being Dona Maria Celeste Matos, who told her that “the death squad commanded a military action in some blocks of the street”, having carried out a siege, positioning armed men along the entire length of the street. Dona Maria also stated, according to Maria Amélia Teles, that her son was playing with Napoleão's son on the nearby soccer field, when shots began to be heard, and Napoleão went out to get the boys: Mr. Napoleon was at home painting a clothesline for me. He heard so many shots, one after the other, and he then told his wife, Dona Alda, that he was going to get his son who was playing ball in the field, that's when he went out into the street and was executed by the death squad that came shooting down the street.
In the request for a cadaveric examination of Napoleon, sent by the Regional Police Department of Greater São Paulo to the IML, a handwritten T appears, a symbol used by repression bodies to identify “terrorists”, indicating an attempt by the police to justify Napoleon's murder.
However, everything indicates that he was killed because he witnessed the siege and execution of the militants. His son, Manoel Biscaldi, recognized the body in the morgue. Napoleon was buried by his family in the Araçá cemetery on February 28, 1973.
Napoleão Felipe Biscaldi murió tras recibir un disparo en la cabeza frente a su casa, el 27 de febrero de 1973. En ese momento, también murieron los militantes Alexander José Ibsen Voerões y Lauriberto José Reyes. Alejandro murió en la misma calle que Napoleón, mientras que Lauriberto fue asesinado en otra cuadra.
El cuerpo de Napoleón estuvo expuesto en la calle durante unas cinco horas hasta la llegada del IML, mientras que los cuerpos de los militantes fueron recogidos tras el asesinato y llevados en el maletero de un coche de policía. La versión oficial publicada entonces en el Jornal Folha de S.Paulo fue que Napoleón fue asesinado por “terroristas” durante un feroz tiroteo entre militantes y la policía. En un documento CISA de 1975, publicado internamente entre organismos estatales, la versión respaldada es la misma.
Más de 40 años después, las investigaciones sobre este episodio revelaron la existencia de numerosos elementos que permiten señalar que la versión publicada en su momento no es sostenible. A pesar de que resultó en una acción policial violenta, en ese momento no se llevó a cabo ninguna investigación que permitiera probar el presunto tiroteo denunciado. No se encontraron documentos que presentaran una lista de las armas utilizadas, ni fotografías del lugar del enfrentamiento; Por lo tanto, no fue posible establecer la dinámica de los hechos que culminaron con la muerte de estos militantes.
Según relatos de vecinos de esa calle, la tarde del 27 de febrero la cuadra fue rodeada por policías, por lo que nadie podía entrar ni salir. Según el testimonio de Adalberto Barreiro, quien al momento de los hechos vivía en una calle paralela al lugar del presunto tiroteo, había un joven que intentaba correr cojeando y sujetándose la pierna, cuando pasó una Opal blanca con policías armados con ametralladoras, con la mitad del cuerpo afuera del auto, disparando. Primero, golpearon a Napoleão Felipe Biscaldi – funcionario jubilado y ex residente de [Serra de] Botucatu, que cruzaba la calle; Luego le dispararon al niño que cojeaba.
Al parecer el niño murió instantáneamente. La policía lo metió en el maletero del coche. Las calles estaban rodeadas de policías. Adalberto también dijo que vio a una niña japonesa atrapada dentro de Opala y que la policía comentó que en la otra cuadra también habían asesinado a otro militante.
Según los vecinos que presenciaron el episodio, contrariamente a la versión oficial, ninguno de los militantes sacó sus armas. Incluso destacaron que el cuerpo de Napoleón permaneció en la calle durante cinco horas a la espera de un examen forense, mientras que los cuerpos de los dos militantes ya habían sido trasladados.
Maria Amélia Teles, en declaración dada ante la Comisión Estatal de la Verdad de São Paulo Rubens Paiva, el 20 de marzo de 2014, relata que habló con algunos vecinos de Napoleão, uno de ellos doña Maria Celeste Matos, quienes le dijeron que “el escuadrón de la muerte comandó una acción militar en algunas cuadras de la calle”, habiendo realizado un asedio, posicionando hombres armados a lo largo de toda la calle. Doña María también contó, según María Amélia Teles, que su hijo estaba jugando con el hijo de Napoleão en el campo de fútbol cercano, cuando comenzaron a oírse disparos, y Napoleão salió a buscar a los niños: el señor Napoleón estaba en casa pintándome un tendedero. Escuchó tantos disparos, uno tras otro, y luego le dijo a su esposa, doña Alda, que iba a buscar a su hijo que estaba jugando a la pelota en el campo, fue entonces cuando salió a la calle y fue ejecutado por el escuadrón de la muerte que venía disparando por la calle.
En la solicitud de examen cadavérico de Napoleón, enviada por la Dirección Regional de Policía del Gran São Paulo al IML, aparece una T manuscrita, símbolo utilizado por los órganos de represión para identificar a los “terroristas”, indicando un intento de la policía de justificar el asesinato de Napoleón.
Sin embargo, todo indica que fue asesinado porque presenció el asedio y ejecución de los militantes. Su hijo, Manoel Biscaldi, reconoció el cadáver en la morgue. Napoleón fue enterrado por su familia en el cementerio de Araçá el 28 de febrero de 1973.
*Texto retirado de memoriasdaditadura.org.br