Thomaz
Antônio
da Silva
Meirelles
Netto
CIRCUNSTÂNCIAS DA MORTE
Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto foi preso por agentes do DOI do I Exército, no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro (RJ), no dia 7 de maio de 1974. Pouco depois de ter sido posto em liberdade, em 17 de novembro de 1972, Thomaz Antônio teve que voltar a viver na clandestinidade em razão das perseguições sofridas. Conforme relato da jornalista Míriam Marreiro Meirelles, com quem foi casado: Livre em 1973, dois meses foi o tempo que teve para tentar reestruturar-se. Mais uma vez, era obrigado, pela caça empreendida pelo aparelho repressivo, a entrar na clandestinidade. Ele pressentia a redução de sua pena como uma armadilha. Como consequência, eu e seus amigos fomos sequestrados e torturados: queriamno outra vez, mas as investigações policiais foram infrutíferas quanto a qualquer outra incriminação política, apesar de o chamarem de guerrilheiro.ii Corroborando a declaração de Míriam Marreiro Meirelles, a documentação disponível dos órgãos de segurança e informações da Ditadura Militar confirma o monitoramento e perseguição de Thomaz em meados de 1973. Documento confidencial do Centro de Informações da Aeronáutica – CISA, de julho daquele ano, registra uma série de diligências empreendidas pelo DOI do I Exército, Rio de Janeiro, no intuito de obter a “localização do paradeiro do nominado”. O documento registra a libertação de seis pessoas, “por ter sido comprovado não estarem atuando em nenhuma Organização Subversiva”. Menciona ainda que: “permanecem detidos, em processo de apuração de implicações: Míriam da Silva Marreiro, Manoel Maurício de Albuquerque, Clair Montenegro dos Santos, Leda Montenegro Raimundo e Wilton Montenegro Santos”.iii Em relação a Wilton Montenegro Santos, documento também confidencial do CISA, de 12 de setembro de 1977, informa que, em julho de 1973, Wilton havia indicado, em interrogatório, a possibilidade de Jamil Reston ter contatos com Thomaz Antônio, “face a ambos serem amazonenses”iv . Nessa mesma época, mais precisamente em agosto de 1973, o ator Carlos Alberto Vereza de Almeida, amigo de Thomaz, foi detido pelo DOI/CODI do I Exército, “juntamente com Lúcio da Silva Marreiros, face às suas ligações com Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto” v . Na manhã de 7 de maio de 1974, Thomaz foi preso e, depois disso, nunca mais foi visto. Em frases telegráficas, o relatório da Marinha remetido ao ministro da Justiça em 1993 consignou apenas: “DEZ/72, preso anteriormente e liberado na primeira semana de dez/72, preso novamente no dia 07/mai/74, entre o Rio de Janeiro para São Paulo” vi . O mesmo dado sobre a prisão entre o Rio de Janeiro e São Paulo consta em documento localizado nos arquivos do DOPS/SP, conforme informações do processo de Thomaz perante a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP). Em declaração escrita encaminhada à CEMDP, Maria do Amparo Almeida Araújo afirma que Thomaz Antônio desapareceu no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, entre 10h45 e 11h15 do dia 7 de maio de 1974. Na ocasião, ele ia encontrar-se com Beth e Flávio Leão Sales, militantes da ALN que intentavam sair do país. Ela contesta a versão de que a prisão teria se dado entre o Rio de Janeiro e São Paulo pois essas viagens teriam deixado de acontecer desde a morte de outros dirigentes da ALN em São Paulo, em novembro de 1973. Em 28 de janeiro de 1979, o jornal Folha de São Paulo publicou entrevista do general de Brigada Adyr Fiúza de Castro concedida ao jornalista Antônio Henrique Lago. Na reportagem, Adyr Fiúza de Castro reconheceu a morte de Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto e de mais onze desaparecidos políticos. De acordo com as folhas de alterações de Adyr Fiúza de Castro, documento de pessoal que registra carreira e lotações de militares, o então coronel exercia à época a função de subchefia do Estado-Maior do I Exército, sob o qual se subordinavam hierarquicamente tanto a 2ª Seção (Informações) como o DOI/CODI. Notícia do jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 3 de agosto de 1979, informou que 14 desaparecidos políticos, inclusive Thomaz, teriam sido executados pelos órgãos de segurança e informação do regime militar. A revista IstoÉ, em 15 de abril de 1987, em matéria intitulada “Longo do Ponto Final”, revelou que o ex-médico militar Amílcar Lobo afirmou ter visto Thomaz no DOI-CODI do I Exército, embora não pudesse indicar com precisão a data. O depoimento de João Henrique de Carvalho, o Jota, agente infiltrado na Ação Libertadora Nacional, prestado à Comissão Nacional da Verdade em 1º de março de 2013, não trouxe novos elementos sobre o desaparecimento de Thomaz. Em 23 de julho de 2014, a Comissão Nacional da Verdade realizou audiência pública em Brasília (DF) para ouvir as declarações de Cláudio Antônio Guerra, ex-delegado do DOPS/ES. A Comissão já colhera anteriormente outros dois depoimentos de Cláudio Guerra, mas fez uma terceira oitiva com foco nos casos de desaparecidos políticos que o ex-delegado alegou publicamente ter levado, depois de mortos, para incineração em usina de açúcar em Campos dos Goytacazes (RJ), a usina Cambahyba. Perguntado sobre o caso de Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto, Guerra, apesar de admitir que pode ter conduzido o corpo de Thomaz à usina, não demonstrou convicção em seu reconhecimento facial por meio de fotografias apresentadas. Nas buscas empreendidas pela CNV em livros de registro dos cemitérios de Petrópolis (RJ), para onde Thomaz Antônio Meirelles poderia ter sido levado após sua prisão, não foram encontrados registrados indicativos. Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto permanece desaparecido, após sua prisão dos agentes do DOI/CODI do I Exército, no Rio de Janeiro (RJ), em 7 de maio de 1974.
Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto was arrested by DOI agents from the 1st Army, in the Leblon neighborhood, in Rio de Janeiro (RJ), on May 7, 1974. Shortly after being released, on November 17, 1972, Thomaz Antônio had to return to living in hiding due to the persecution he suffered. As reported by journalist Míriam Marreiro Meirelles, to whom he was married: Free in 1973, two months was the time he had to try to restructure himself. Once again, he was forced, by the hunt carried out by the repressive apparatus, to go underground. He sensed the reduction of his sentence as a trap. As a consequence, my friends and I were kidnapped and tortured: they wanted him again, but the police investigations were unsuccessful in terms of any other political incrimination, despite calling him a guerrilla.ii Corroborating Míriam Marreiro Meirelles' statement, the documentation available from the security and intelligence bodies of the Military Dictatorship confirms the monitoring and persecution of Thomaz in mid-1973. Confidential document from the Air Force Information Center – CISA, from July of that year, records a series of steps taken by the DOI of the 1st Army, Rio de Janeiro, with the aim of obtaining the “location of the nominee’s whereabouts”. The document records the release of six people, “as it was proven that they were not working in any Subversive Organization”. It also mentions that: “the following remain in detention, in the process of determining the implications: Míriam da Silva Marreiro, Manoel Maurício de Albuquerque, Clair Montenegro dos Santos, Leda Montenegro Raimundo and Wilton Montenegro Santos”. indicated, in interrogation, the possibility that Jamil Reston had contacts with Thomaz Antônio, “given that they are both from Amazonas”iv. At the same time, more precisely in August 1973, the actor Carlos Alberto Vereza de Almeida, a friend of Thomaz, was detained by the DOI/CODI of the 1st Army, “together with Lúcio da Silva Marreiros, due to his connections with Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto” v . On the morning of May 7, 1974, Thomaz was arrested and, after that, he was never seen again. In telegraphic phrases, the Navy report sent to the Minister of Justice in 1993 simply stated: “DEC/72, previously arrested and released in the first week of Dec/72, arrested again on May 7th/74, between Rio de Janeiro and São Paulo” vi. The same information about the prison between Rio de Janeiro and São Paulo appears in a document located in the DOPS/SP archives, according to information from Thomaz's case before the Special Commission on Political Deaths and Disappearances (CEMDP). In a written statement sent to CEMDP, Maria do Amparo Almeida Araújo states that Thomaz Antônio disappeared in the Leblon neighborhood, in Rio de Janeiro, between 10:45 am and 11:15 am on May 7, 1974. At the time, he was going to meet Beth and Flávio Leão Sales, ALN activists who were trying to leave the country. She disputes the version that the arrest took place between Rio de Janeiro and São Paulo because these trips had stopped taking place since the death of other ALN leaders in São Paulo, in November 1973. On January 28, 1979, the newspaper Folha de São Paulo published an interview with Brigadier General Adyr Fiúza de Castro given to journalist Antônio Henrique Lago. In the report, Adyr Fiúza de Castro acknowledged the death of Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto and eleven other missing politicians. According to Adyr Fiúza de Castro's change sheets, a personnel document that records the career and assignments of military personnel, the then colonel held the role of deputy chief of the General Staff of the 1st Army at the time, under which both the 2nd Section (Information) and the DOI/CODI were hierarchically subordinated. News from the newspaper Correio da Manhã, from Rio de Janeiro, on August 3, 1979, reported that 14 missing politicians, including Thomaz, had been executed by the security and information bodies of the military regime. IstoÉ magazine, on April 15, 1987, in an article entitled “Longo do Ponto Final”, revealed that former military doctor Amílcar Lobo claimed to have seen Thomaz in the DOI-CODI of the 1st Army, although he could not indicate the date precisely. The testimony of João Henrique de Carvalho, known as Jota, an undercover agent in the National Liberation Action, given to the National Truth Commission on March 1, 2013, did not bring new elements about Thomaz's disappearance. On July 23, 2014, the National Truth Commission held a public hearing in Brasília (DF) to hear the statements of Cláudio Antônio Guerra, former DOPS/ES delegate. The Commission had previously collected two other testimonies from Cláudio Guerra, but held a third hearing focusing on the cases of missing politicians who the former delegate publicly claimed to have taken, after their deaths, for incineration in a sugar factory in Campos dos Goytacazes (RJ), the Cambahyba plant. Asked about the case of Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto, Guerra, despite admitting that he may have taken Thomaz's body to the plant, did not demonstrate conviction in his facial recognition through photographs presented. In the searches carried out by the CNV in the registry books of the cemeteries of Petrópolis (RJ), where Thomaz Antônio Meirelles could have been taken after his arrest, no indicative records were found. Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto remains missing, after his arrest by DOI/CODI agents of the 1st Army, in Rio de Janeiro (RJ), on May 7, 1974.
Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto fue detenido por agentes del DOI del 1.º Ejército, en el barrio de Leblon, en Río de Janeiro (RJ), el 7 de mayo de 1974. Poco después de ser liberado, el 17 de noviembre de 1972, Thomaz Antônio tuvo que volver a vivir en la clandestinidad debido a la persecución que padecía. Según relató la periodista Míriam Marreiro Meirelles, con quien estuvo casado: Libre en 1973, dos meses fue el tiempo que tuvo para intentar reestructurarse. Una vez más, se vio obligado, por la cacería llevada a cabo por el aparato represivo, a pasar a la clandestinidad. Sintió la reducción de su pena como una trampa. Como consecuencia, mis amigos y yo fuimos secuestrados y torturados: lo buscaban nuevamente, pero las investigaciones policiales no tuvieron éxito en cuanto a cualquier otra incriminación política, a pesar de llamarlo guerrillero.ii Corroborando la declaración de Míriam Marreiro Meirelles, la documentación disponible en los órganos de seguridad e inteligencia de la Dictadura Militar confirma el seguimiento y persecución de Thomaz a mediados de 1973. Documento confidencial del Centro de Información de la Fuerza Aérea – CISA, de julio de ese año, registra una serie de gestiones realizadas por el DOI del 1º Ejército, de Río de Janeiro, con el objetivo de obtener la “ubicación del paradero del nominado”. El documento registra la liberación de seis personas, “al comprobarse que no trabajaban en ninguna Organización Subversiva”. También menciona que: “permanecen detenidos, en proceso de determinación de implicaciones: Míriam da Silva Marreiro, Manoel Maurício de Albuquerque, Clair Montenegro dos Santos, Leda Montenegro Raimundo y Wilton Montenegro Santos”. indicó, en el interrogatorio, la posibilidad de que Jamil Reston tuviera contactos con Thomaz Antônio, “dado que ambos son de Amazonas”iv. Al mismo tiempo, más precisamente en agosto de 1973, el actor Carlos Alberto Vereza de Almeida, amigo de Thomaz, fue detenido por el DOI/CODI del 1.º Ejército, “junto con Lúcio da Silva Marreiros, por sus vínculos con Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto” v . En la mañana del 7 de mayo de 1974, Thomaz fue arrestado y, después de eso, nunca más se le volvió a ver. En frases telegráficas, el informe de la Marina enviado al Ministro de Justicia en 1993 simplemente decía: “DEC/72, previamente arrestado y liberado en la primera semana de diciembre/72, arrestado nuevamente el 7 de mayo/74, entre Río de Janeiro y São Paulo” vi. La misma información sobre la prisión entre Río de Janeiro y São Paulo aparece en un documento ubicado en los archivos del DOPS/SP, según informaciones del caso de Thomaz ante la Comisión Especial sobre Muertes y Desapariciones Políticas (CEMDP). En declaración escrita enviada al CEMDP, Maria do Amparo Almeida Araújo afirma que Thomaz Antônio desapareció en el barrio de Leblon, en Río de Janeiro, entre las 10:45 y las 11:15 del 7 de mayo de 1974. En ese momento, se dirigía a encontrarse con Beth y Flávio Leão Sales, militantes de la ALN que intentaban salir del país. Ella cuestiona la versión de que la detención se produjo entre Río de Janeiro y São Paulo porque esos viajes habían dejado de realizarse desde la muerte de otros dirigentes del ALN en São Paulo, en noviembre de 1973. El 28 de enero de 1979, el periódico Folha de São Paulo publicó una entrevista con el general de brigada Adyr Fiúza de Castro concedida al periodista Antônio Henrique Lago. En el informe, Adyr Fiúza de Castro reconoció la muerte de Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto y de otros once políticos desaparecidos. Según las hojas de cambios de Adyr Fiúza de Castro, documento personal que registra la carrera y asignaciones del personal militar, el entonces coronel desempeñaba el cargo de subjefe del Estado Mayor General del 1.º Ejército en ese momento, bajo el cual estaban subordinados jerárquicamente tanto la Sección 2.ª (Información) como el DOI/CODI. Una noticia del periódico Correio da Manhã, de Río de Janeiro, del 3 de agosto de 1979, informó que 14 políticos desaparecidos, entre ellos Thomaz, habían sido ejecutados por los órganos de seguridad e información del régimen militar. La revista IstoÉ, del 15 de abril de 1987, en un artículo titulado “Longo do Ponto Final”, reveló que el ex médico militar Amílcar Lobo afirmó haber visto a Thomaz en el DOI-CODI del 1.º Ejército, aunque no pudo indicar la fecha con precisión. El testimonio de João Henrique de Carvalho, conocido como Jota, agente encubierto de la Acción de Liberación Nacional, prestado ante la Comisión Nacional de la Verdad el 1 de marzo de 2013, no aportó nuevos elementos sobre la desaparición de Thomaz. El 23 de julio de 2014, la Comisión Nacional de la Verdad realizó una audiencia pública en Brasilia (DF) para escuchar las declaraciones de Cláudio Antônio Guerra, ex delegado del DOPS/ES. La Comisión había recogido previamente otros dos testimonios de Cláudio Guerra, pero celebró una tercera audiencia centrada en los casos de políticos desaparecidos que el ex delegado afirmó públicamente haber llevado, después de su muerte, para incinerar en una fábrica de azúcar de Campos dos Goytacazes (RJ), la central de Cambahyba. Cuestionado sobre el caso de Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto, Guerra, a pesar de admitir que pudo haber llevado el cuerpo de Thomaz a la planta, no demostró convicción en su reconocimiento facial a través de las fotografías presentadas. En las búsquedas realizadas por la CNV en los libros de registro de los cementerios de Petrópolis (RJ), donde podría haber sido llevado Thomaz Antônio Meirelles tras su detención, no se encontraron registros indicativos. Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto permanece desaparecido, luego de su arresto por agentes del DOI/CODI del 1.º Ejército, en Río de Janeiro (RJ), el 7 de mayo de 1974.
*Texto retirado de memoriasdaditadura.org.br